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CazéTV e Flamengo TV: as regras do jogo das transmissões esportivas estão mudando?

Por Paula Delgado, jornalista e doutoranda em Comunicação pela UFJF

Você, provavelmente, assiste à Copa pela televisão. A questão é: em qual canal ela está ligada?

Durante muitas décadas, o futebol brasileiro se estruturou a partir de um sistema em que as grandes emissoras abertas, especialmente o Grupo Globo, organizavam a produção, a distribuição e a monetização do espetáculo esportivo.

A lógica era simples: as emissoras controlavam os direitos de transmissão, definiam os horários dos jogos e tinham o monopólio da audiência.

Nos últimos anos, esse modelo começou a ser ameaçado pelas plataformas de streaming, redes sociais, canais de YouTube e produtores de conteúdo independentes, que passaram a disputar a atenção do público. O tema central da editoria do jornalismo esportivo começou a ser um elemento de disputa entre os intermediários tradicionais e os que estavam chegando ao mercado.

Um dos marcos dessa transformação ocorreu com a Lei do Mandante (Lei nº 14.205/2021), que alterou a Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998). Com essa mudança, os direitos de transmissão ou reprodução das partidas pertencem ao clube mandante do jogo. Isso alterou diretamente o rumo das negociações dos direitos de transmissão.

Em 2020, o Flamengo travou um embate com a Rede Globo e não renovou o contrato com a emissora para a transmissão do Campeonato Carioca. E, com respaldo na Lei do Mandante, a própria Flamengo TV transmitiu a competição com imagens e áudio. Posteriormente, outros canais entraram na jogada.

Quando a CazéTV transmitiu partidas da Copa do Mundo de Futebol de 2022 pelo YouTube, ocorreu um abalo forte no sistema vigente de transmissões esportivas. O canal demonstrou que era possível ter uma audiência significativa fora da televisão tradicional, utilizando uma linguagem mais leve, próxima do ambiente on-line e dos hábitos de consumo das novas gerações.

Essa foi a primeira vez que grande parte do público acompanhou um dos maiores eventos esportivos do planeta por meio de um canal nativo e pensado para a internet.

Depois disso, a CazéTV fez outros movimentos para se estabelecer no mercado de transmissões esportivas, transmitindo as Olimpíadas de 2024 e tornando-se a maior detentora de jogos da Copa do Mundo de 2026.

Nesse cenário de transformação das transmissões esportivas, os próprios clubes passaram a buscar novas formas de produzir e distribuir conteúdo.

Outros canais de YouTube já perceberam há tempos a potência que a plataforma tem. Desde 2015, o Flamengo vem investindo fortemente na construção de uma estrutura própria de comunicação. Em 2025, o canal passou por uma reformulação significativa e trouxe nomes conhecidos do jornalismo esportivo televisivo, como Daniela Boaventura e João Guilherme.

Reprodução: TIme Flamengo

Equipe da Flamengo TV. Da esquerda para a direita: Lazlo Dalfovo, Jéssica Mendes, Bruno Ourique, Raquel Drodowski, Dani Boaventura, Flávia Da Justa , Olivinha, João Guilherme, Emerson Santos, Reikrauss, Diego Pose. Fonte: Hermes de Paula/CRF

A Flamengo TV é a TV de clube com maior número de inscritos no YouTube fora da Europa e, pelo menos nos últimos cinco anos, a maior do Brasil. Além disso, foi o primeiro canal de clube de futebol fora da Europa a alcançar a marca histórica de 1 bilhão de visualizações.

O que chama patenção nos conteúdos produzidos pela Flamengo TV é a diversidade de temas, formatos e cenários. Por exemplo, transmissões ao vivo de modalidades olímpicas e de jogos das categorias de base, jogos do profissional somente com áudio na plataforma gratuita e com áudio e imagens para assinantes e para fora do país. Também tem programas de entretenimento, documentários, entrevistas, programas de análise e cobertura do dia a dia do clube.

Isso mostra que o Flamengo não enxerga a comunicação somente como um departamento de divulgação institucional. O clube entendeu que este é um ativo estratégico capaz de gerar audiência, fortalecer a marca Flamengo e criar novas possibilidades de atuação no mercado.

A contratação de profissionais reconhecidos do jornalismo esportivo, junto com criadores de conteúdo do ambiente digital, mostra uma tentativa de criar algo que tenha suas próprias marcas, assim como na CazéTV.

Ainda é muito cedo para imaginar uma mudança estrutural do modelo atual de transmissões esportivas. Os grandes grupos televisivos continuam tendo uma infraestrutura e uma força financeira superiores às desses canais de YouTube. Além disso, os direitos de transmissão envolvem acordos políticos, comerciais e financeiros milionários, o que faz esse jogo ser muito mais delicado do que a gente imagina.

Este texto é uma avaliação do que temos agora e não um exercício de futurologia. A possibilidade de uma disputa futura que não será apenas entre quem transmite os jogos, mas também entre quem controla a narrativa, é o que está sendo levantado.

Durante muito tempo, a cobertura esportiva era feita por veículos externos aos clubes, mas hoje equipes como o Flamengo estão construindo uma estrutura capaz de produzir conteúdo próprio durante todos os dias da semana, oferecendo conteúdo personalizado para o seu torcedor a qualquer momento, mesmo quando não há partidas acontecendo.

Por exemplo, a Flamengo TV criou uma programação especial durante a Copa do Mundo de 2026 com programas que trazem , entretenimento, informação, debates sobre os jogos do dia, acompanhamento dos jogadores do elenco rubro-negro que foram convocados para o torneio mundial.

Pode até ser que não tenha jogos do Flamengo, mas o Flamengo está acontecendo na Flamengo TV para os flamenguistas. O conteúdo personalizado não para.

O espetáculo esportivo extrapolou os 90 minutos em campo. Ele é um fluxo permanente de conteúdo distribuído por diferentes plataformas, formatos e linguagens que conseguem se moldar aos contextos de qualquer momento. A Copa do Mundo não parou o Flamengo.

A ascensão da CazéTV e a consolidação da Flamengo TV podem até ser vistas como fenômenos diferentes, mas indicam que o conteúdo esportivo e, em especial, as transmissões esportivas estão sofrendo modificações.

Enquanto a CazéTV conta com a estrutura de uma empresa de mídia esportiva integrada à LiveMode para produzir seus conteúdos, o Flamengo é quem está assumindo esse papel da produção até a divulgação.

Se temos mudanças, temos novos desafios no universo midiático esportivo, as bets como patrocinadoras. Apesar das casas de apostas também patrocinarem clubes, 12 na série A do Brasil e campeonatos nacionais, como o Brasileirão (a Betano tem os naming rights da competição), elas chegaram aos meios de comunicação.

As principais emissoras e canais no Brasil que divulgam casas de apostas são: Rede Globo (incluindo o canal Sportv), SBT, Band e CazéTV.

Como é possível perceber, o mercado de mídia e eventos esportivos no Brasil é fortemente financiado por essas marcas, que fecham contratos milionários de cotas de patrocínio.

Na semana da última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, a CazéTV foi notificada e passou a ser investigada pela Senacon por possíveis irregularidades na publicidade de bets durante o torneio. A Conar também determinou, em caráter liminar, a suspensão de anúncios considerados potencialmente abusivos.

O canal está diante de dilemas típicos dos grandes players, mostrando que já está no jogo, inclusive para ser fiscalizado quanto à responsabilidade na comunicação esportiva e seus impactos na sociedade. 

O que a Flamengo TV e a CazéTV estão mostrando é que a disputa pela audiência esportiva não acontece mais apenas dentro dos estádios ou nas grades de programação da televisão tradicional. Agora, as plataformas digitais, os algoritmos e os formatos de conteúdo entraram no jogo e estão mostrando diferentes maneiras de construir vínculo com o público.

Ainda é muito cedo para falar em uma “nova era das transmissões esportivas”. Talvez o modelo tradicional continue dominante por muitos anos. Mas, ainda assim, vale a pena observar que novos jogadores estão querendo entrar no jogo e, com isso, as regras da comunicação também podem mudar, e já estão mudando.

Referências

 

BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Tradução: Mariza Corrêa. Campinas: Papirus, 1996. 

DELGADO, Paula Leão. Heroísmo rubro-negro em telas: a jornada do herói como estratégia de marca na FlaTv. 2024. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/17292. Acesso em: 30 mar. 2026. 

DELGADO, Paula Leão; COUTINHO, Iluska Maria da Silva. Marcas de transmissão esportiva na web: uma análise da linguagem audiovisual do produto da CazéTV. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 46., 2023, Belo Horizonte. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2023. Disponível em: intercom.org.br. Acesso em: 19 jun. 2026.