Sete anos após o rompimento da barragem, sobreviventes e familiares de vítimas enfrentam uma epidemia silenciosa de transtornos mentais, luto prolongado e adoecimento físico. Relatos de quem teve a vida transformada em 2019 constroem a radiografia de uma dor que o tempo não curou.
Por Heitor Carneiro

Josiane Melo, irmã de uma das vítimas, durante ato em memória da tragédia de Brumadinho, em janeiro de 2021, dois anos após o desastre | Arquivo pessoal Josiane Melo
A vida de Josiane Melo estava programada para recomeçar em um sopro de infância. Na última semana de janeiro de 2019, a engenheira civil, especializada em mineração, abriu mão de cinco dias de suas férias na Vale, empresa onde construía carreira desde 2005. O motivo era o mais terno possível: ela queria estar ao lado da irmã, Eliane Melo, de 39 anos, que enfrentava uma gestação de risco. A família inteira orbitava em torno daquela expectativa. Já sabiam o nome da bebê: Maria Elisa. Dizia-se, entre sorrisos e planos de aposentadoria precoce, que a menina nasceria com o privilégio de ter três mães: a biológica e as duas tias. Havia pressa para amar Maria Elisa. Havia um “fôlego de vida novo”, como Josiane costumava repetir, prestes a inundar a casa.
O fôlego foi soterrado às 12h28 do dia 25 de janeiro.
Em apenas dois minutos, 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração transformaram a estrutura da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, em um cenário de guerra. A lama correu a uma velocidade devastadora de até 108 km/h. Matou 272 pessoas, uma contagem que o rigor técnico costuma fixar em 270, mas que a dignidade humana corrige para incluir os dois bebês que nunca chegaram a nascer. Maria Elisa, protegida pelo corpo de Eliane, e Lorenzo, no ventre de Fernanda, são outras duas vítimas, conforme registro em portal do Ministério Público de Minas Gerais.
“Naquele dia, nossa vida mudou drasticamente e eu acredito que eternamente”, relata Josiane, com uma voz que carrega o peso de quem sobreviveu para contar o horror. “De um dia para o outro, eu perdi minha irmã, minha sobrinha, todos os meus amigos e colegas. Da minha equipe de trabalho, fui a única sobrevivente.”

O último registro de Eliane Melo, grávida de Maria Elisa, em 20 de janeiro de 2019, cinco dias antes do rompimento da barragem da Vale | Arquivo pessoal Josiane Melo
A Cronologia do Trauma
No jornalismo factual, os desastres costumam acabar quando a lama seca e os refletores das grandes redes de televisão se apagam. Na psicologia do trauma, o relógio funciona ao contrário.
“Quando a gente olha para o que aconteceu em Brumadinho, percebe que o impacto vai muito além da destruição física”, explica a psicóloga Alexandra Xavier. Com anos de experiência no acolhimento de perdas complexas, ela aponta para uma armadilha temporal: “O tempo do trauma psíquico opera em uma cronologia diferente. Para além do luto imediato, os sintomas mais profundos costumam se consolidar a médio e a longo prazo. É uma ferida aberta que se recusa a fechar.”
Josiane traduz o conceito científico com uma precisão dolorosa: “Sete anos se passaram, mas para mim, parece que minha irmã morreu tem sete minutos. E eu tenho certeza que, para muitos familiares, é a mesma coisa. Parece que o rompimento da barragem nos separou desse mundo. Estamos em um mundo à parte.”
A ciência dá razão ao desespero das vítimas. Estudos realizados por pesquisadores da Fiocruz Minas e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelam uma escalada assustadora no adoecimento mental da população de Brumadinho. Em 2021, dois anos após o crime, 28,8% dos adultos da região sofriam de episódios depressivos maiores. Em 2023, esse número saltou para 38,4%. Os transtornos de ansiedade quase dobraram no mesmo período, passando de 19,2% para 30,8%. Entre os adolescentes, o cenário é igualmente sombrio: 31,4% relataram quadros de depressão profunda.
Para conter o colapso psíquico, a cidade passou a se anestesiar quimicamente. Conforme levantamento realizado pelo Jornal Estado de S. Paulo compartilhado pelo MPMG, houve uma explosão na busca e no consumo de antidepressivos e medicamentos contra a ansiedade, especialmente nas áreas mais atingidas pela lama, onde o luto convive com a poeira tóxica da mineração.
“Eu nunca tinha tido nenhum problema de saúde”, confessa Josiane. “Hoje, tomo cinco remédios por dia. Passei por fases em que eu bebia remédio e bebia cachaça para tentar conseguir dormir. Eu perdi a minha carreira. Hoje não consigo trabalhar, não tenho expectativa de vida.”

Josiane Melo nas primeiras horas após o rompimento da barragem, em 25 de janeiro de 2019, diante da falta de informações sobre sua irmã, sobrinha e amigos | Arquivo pessoal Josiane Melo
O Campo de Batalha Invisível
A literatura médica sobre catástrofes frequentemente compara o estado mental de sobreviventes de tragédias como a de janeiro de 2019, em Minas Gerais, ao de soldados que retornam de combates militares. Em Brumadinho, a guerra começou na busca pelos corpos. Diante da completa ausência de gerenciamento de crise por parte da Vale nos primeiros dias, funcionários sobreviventes foram autorizados a escavar a lama em busca de seus colegas.
Josiane se lembra de entrar escondida nas áreas isoladas pelos bombeiros, deitada no piso de trás de caminhonetes de amigos, que colocavam os pés sobre o seu corpo para camuflá-la. Ela alimentava a ilusão de que Eliane teria corrido para o mato e sobrevivido. O choque de realidade veio banhado em burocracia e violência semântica.
Nas reuniões com as autoridades e com a mineradora, os familiares começaram a se deparar com a expressão “segmentos corpóreos”. “A gente não entendia o termo. Não entendia que os nossos haviam sido triturados vivos. Se aquela lama derrubou prédios e destruiu maquinário pesado, imagina o que não fez com os corpos?”, questiona a engenheira. Ela mesma cruzou dados, mapas e vídeos até conseguir direcionar os bombeiros ao local exato onde sua irmã estava. Eliane foi localizada em 2 de abril de 2019, sendo a última vítima da tragédia identificada por meio das digitais.
A barbárie de carregar os restos mortais de vizinhos e amigos deixou sequelas profundas nos trabalhadores que atuaram no resgate. “Isso gera um trauma insuportável”, pontua Josiane. “Muitos colegas carregam um sentimento de culpa avassalador que todos nós, sobreviventes, compartilhamos. Por que a gente não estava ali? Por que nós ficamos?”

Josiane e equipe de trabalhadores sobreviventes atuam nas buscas pelos desaparecidos na lama de rejeitos em Brumadinho, em janeiro de 2019 | Arquivo pessoal Josiane Melo
Quando a Tristeza Mata o Corpo
A dor mental em Brumadinho é tão densa que começou a transbordar para o corpo físico. Há uma linha tênue, mas cientificamente comprovada, entre o luto crônico e a falência biológica. É o fenômeno da “somatização em massa”.
Josiane, que é diretora da Avabrum (Associação dos Familiares das Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem em Brumadinho), relata que desde a tragédia a entidade contabilizou a perda de 17 pais e mães de vítimas fatais. Eles não morreram na lama, mas nos anos seguintes, em decorrência de diagnósticos fulminantes de câncer, lúpus, diabetes tipo 1 e infartos.
“Eles adoeceram de tristeza”, relata Josiane Melo. “Um deles morreu no próprio dia 25 de janeiro. O seu Alderico esperava, todos os dias na calçada, o filho voltar do trabalho às 17h30. O coração não aguentou.”
A psicóloga Alexandra alerta que a assistência em saúde mental não pode ser tratada de forma secundária ou temporária. “A demanda psicológica complexa persiste por anos. O SUS precisa de ampliação contínua nesse município, com equipes que visitem as famílias rurais e oficinas terapêuticas voltadas para as crianças que estão crescendo sob a sombra desse trauma”. Ela ainda lembra que: “Precisamos cuidar de quem cuida. Os profissionais de saúde da região tratam a dor do outro, mas muitos também perderam seus entes queridos na tragédia.”

Destroços de estruturas e veículos arrastados pela lama de rejeitos em Brumadinho, incluindo o automóvel onde estavam Eliane Melo e a filha, Maria Elisa, em registro de abril de 2019 | Arquivo pessoal Josiane Melo
A Solidão e a Ponte para a Justiça
Além do adoecimento e do luto, os sobreviventes enfrentam a dor do isolamento social dentro da própria comunidade. No terceiro mês após o crime, a Vale passou a pagar um salário emergencial para os moradores de 26 municípios afetados. O dinheiro, que garantiu o sustento econômico da região, ironicamente ergueu um muro de silêncio.
“As pessoas começaram a não se manifestar contra a Vale porque recebiam o dinheiro. Enquanto nós, familiares, estávamos na lama buscando os corpos, a cidade queria discutir as indenizações”, lamenta Josiane. “Até hoje não somos bem vistos por uma parte dos moradores. Acham que ficamos ricos com as indenizações e não nos abraçam na causa da justiça. É uma luta que travamos quase sozinhos.” Duas vítimas, o engenheiro Tiago Tadeu Mendes da Silva e a estagiária Nathália de Oliveira Porto Araújo, nunca foram localizadas.
A busca por reparação psíquica e histórica hoje se arrasta pelos corredores do Tribunal Regional Federal (TRF), em Belo Horizonte, onde os diretores da Avabrum acompanham as audiências criminais duas vezes por semana. A meta é levar a júri popular os executivos e técnicos da Vale e da empresa alemã TÜV SÜD, responsável por emitir o laudo de estabilidade falsificado da barragem.
É nesse ponto de intersecção entre a dor individual e o registro histórico que o Jornalismo assume o seu papel mais nobre. A jornalista e autora do livro-reportagem Arrastados, Daniela Arbex, que investigou os bastidores do desastre, enxerga na preservação dessa memória a única forma de cura possível para uma sociedade ferida.
“Para mim, o Jornalismo é ponte para o coração do outro, ao atravessá-la a gente se transforma”, reflete a escritora. “Eu me transformei em Brumadinho. Quando você pisa naquele solo, percebe que a tragédia não ficou no passado; a lama continua avançando todos os dias, de forma invisível, soterrando a saúde mental e a dignidade de quem ficou. O desastre da Vale não foi um acidente, foi um crime anunciado.”
Arbex alerta para o perigo do esquecimento orquestrado pelo poder econômico. “O maior risco que essas famílias correm, além do adoecimento provocado pelo luto prolongado, é o apagamento de suas histórias”, afirma. Ela explica que o poder tenta anestesiar a sociedade para que o país simplesmente vire a página, mas defende a resistência através da lembrança: “A memória é o caminho para a justiça. Lembrar não é apenas um ato de afeto aos que partiram, é um escudo contra a impunidade. Se nós esquecermos o que aconteceu aqui, estaremos autorizando que aconteça novamente.”
Ao fim de sete anos, o Memorial Brumadinho ergue-se não apenas como um depósito para os segmentos corpóreos que continuam sendo identificados, mas como um marco de resistência fundado por mães, irmãos e órfãos. É o testemunho físico de que a vida deve valer mais do que o lucro. Para Josiane e para os 700 filiados da Avabrum, a associação transformou-se em uma nova e dolorosa família. Uma rede de sobrevivência feita por pessoas que, impedidas de abraçar o futuro, decidiram dar as mãos para não afundar no esquecimento.

Lama de rejeitos cobrindo a região de Brumadinho após o rompimento da barragem, em janeiro de 2019; anos após o crime corporativo, o rastro de destruição ambiental e humana continua a adoecer corpo e mente de uma cidade inteira | Arquivo pessoal Josiane Melo