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A credibilidade de anos acionada para mostrar o outro lado: Caco Barcellos cobrindo a guerra no Irã

Por Gabriel Bhering
Jornalista, pesquisador NJA e doutorando no PPGCOM – UFJF

Fantástico/Reprodução Globoplay, 2026

 

Na última edição do Fantástico, programa que foi ao ar em 12 de abril de 2026, o repórter Caco Barcellos apareceu no Irã, do outro lado do mundo, utilizando uma bengala após cirurgia. A distância  em relação ao Brasil anunciada na chamada já faz o telespectador, disperso na tela do celular, parar e olhar a televisão; esta segue ligada e com seu fluxo ininterrupto de sons e imagens, ainda que algumas vezes “falando para as paredes”. Não há reels no celular que consigam competir com esse feito. Em Juiz de Fora, o pesquisador que estuda audiovisual em interface com o jornalismo aumenta o volume para não perder um detalhe. De norte a sul do Brasil, a matéria chama a atenção do público. As impressões em tempo real compartilhadas no X, antigo Twitter, confirmam o “engajamento”. Enquanto a mídia segue dando destaque para os Estados Unidos, Caco Barcellos, a partir de sua credibilidade de anos, vai ao Irã mostrar o outro lado. 

A credibilidade é um conceito fundamental para refletir sobre a crise que o jornalismo vem vivenciando nos últimos anos. Movida por essa perspectiva, a coordenadora do grupo de pesquisas Núcleo de Jornalismo e Audiovisual (NJA), Iluska Coutinho, desenvolveu pesquisa sobre como a credibilidade se tornou um valor personalizado dos jornalistas. O contato desses profissionais com “parte do público alcança outras redes e telas, incluindo espaços em tese do âmbito da vida privada, como perfis dos profissionais no Instagram” (Coutinho, 2024, p. 72).

No caso do repórter Caco Barcellos, não é possível observar esse comportamento de presença em plataformas digitais, como outros jornalistas que permitem que o público acesse parte de suas vidas privadas. Contudo, o seu jornalismo sempre trouxe marcas autobiográficas (Leujeune, 2008), como revelam as aparições pontuais que ele desenvolve no livro-reportagem Rota 66: A História da Polícia que Mata, vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Reportagem de 1993. No seu programa Profissão Repórter, essas marcas se materializam de modo audiovisual em toda a mise-en-scène que coloca o repórter como um personagem da história ao apresentar com subjetividade a dramaturgia do telejornalismo (Coutinho, 2003) na construção da narrativa. 

Ainda que o público não acesse a vida privada do repórter, como ocorre em outros casos, por meio desses bastidores efetiva-se uma aproximação com o público que cria uma relação de confiança com Barcellos. Essa credibilidade ultrapassa a relação com a audiência e se acentua na crítica especializada, que já premiou o repórter, como o caso do livro-reportagem Rota 66 ilustra. Na academia, o seu reconhecimento é inegável, como se observa com a adoção de suas obras em bibliografias de diferentes cursos de jornalismo. No campo da pós-graduação, uma reflexão sobre o trabalho do repórter resultou na obra organizada por Cárlida Emerim e outros autores no livro Caco Barcellos: 50 anos de jornalismo, publicado pela Insular em 2023. No âmbito do NJA, o pesquisador Gabriel Bheing defendeu recentemente, sob orientação de Coutinho, a dissertação As novas rotas dos livros-reportagem: a adaptação das páginas para as telas, que busca investigar justamente a adaptação do livro-reportagem escrito por Barcelos, a fim de avaliar se os compromissos éticos foram mantidos nessa travessia. Resultados parciais da pesquisa podem ser lidos no artigo A fabulação ampliada na adaptação do livro-reportagem publicado em 2025 na revista Dispositiva.

Essa credibilidade de anos, estabelecida pelo repórter com o público, a crítica especializada e a academia, é uma estratégia dele para não se curvar ao discurso hegemônico existente na grande mídia. Haja vista que, muitas vezes, essas narrativas não são capazes de tratar a realidade com compromisso ético por reproduzir de modo acrítico a visão do consenso. No caso da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, isso pode ser observado com a centralidade que os EUA recebem em contraste ao Oriente Médio, que é tratado sem a devida profundidade. 

Caco Barcellos, sempre muito cético com as representações dominantes, embora atue em um grupo hegemônico, realizou esforços para viajar para o Irã. O desejo de apresentar uma perspectiva diferente daquela que segue sendo contada nos jornais levou o repórter, mesmo de bengala, a também enfrentar a guerra de versões únicas. Lá, Caco ouviu iranianos que estão sofrendo diretamente os impactos das ações estadunidenses. 

É justamente enquanto entrevista esses sobreviventes que a audiência coloca o nome do repórter nos trending topics do X, com comentários que avaliam o compromisso ético e, sobretudo, a coragem do repórter na produção dessa reportagem especial no Fantástico.

 

Reprodução X, 2026

 

 

O comentário de Bruno Henrique nos faz pensar: por qual motivo Caco Barcellos é o único repórter que não faz o jornalismo do chefinho? Possivelmente, a resposta por trás dessa questão complexa está ligada à credibilidade do repórter, que é personalizada a partir de outras motivações quando comparada à desenvolvida por jornalistas influenciadores. Na verdade, o jornalista nem possui um perfil no Instagram. Ainda assim, a sua credibilidade não foi construída apenas pelas apurações de fôlego, mas pelo fato de, como repórter, permitir que o público conheça também seu processo de apuração, seja em seus livros-reportagem ou no telejornalismo. Nesse percurso, o público também o conheceu como ser humano. Hoje, há outros jornalistas que dão espaço para esses bastidores emergirem, mas Caco Barcellos, lá atrás, já sabia que era se colocando na narrativa, sem tomar o espaço das vítimas, que ele conseguiria legitimar o seu jornalismo, que não é e nem nunca foi uma versão objetiva e neutra. 

Pelo contrário, a história que Barcellos sempre tentou contar nesses anos de trabalho é a daqueles que têm menos espaço na mídia: a história dos mais fracos. Além da coragem que acompanha suas reportagens, a possibilidade de gravar uma matéria como essa também perpassa uma credibilidade de anos legitimada por uma multiplicidade de espaços: audiência, crítica e academia. 

Provavelmente, há outros jornalistas capazes de fazer matérias críticas como a de Caco Barcellos, mas, pela falta de uma credibilidade múltipla e de aprovação, precisam se aproximar do discurso hegemônico, mesmo não concordando com ele. Uma pergunta que pode surgir no percurso de um jovem repórter é: como construir essa credibilidade para contar com mais autonomia as histórias desse mundão? Certamente, uma questão complexa, que pode gerar respostas diversas. Interessante reparar que a trajetória do repórter Caco Barcellos na Globo também foi desenvolvida com a energia direcionada para apurações autônomas, como aquelas existentes em seus livros-reportagem. Uma credibilidade múltipla seria aquela que se ramifica para além de uma emissora? Ao ponto de ser uma credibilidade autoral, na qual o repórter consegue aproximar as exigências dos meios às suas demandas enquanto cidadão e não o contrário? Essa pergunta desafiadora a gente deixa para as nossas próximas pesquisas no Núcleo de Jornalismo e Audiovisual (NJA).

 

REFERÊNCIAS 

BARCELLOS, Caco. Rota 66: A História da Polícia que Mata. 22. ed. São Paulo: Galera Record, 2022.

COUTINHO, Iluska. Credibilidade como valor personalizado no jornalismo. 1. ed. Florianópolis, SC: Editora Insular, 2024. E-book. 97 p.

COUTINHO, Iluska. Dramaturgia do telejornalismo brasileiro: a estrutura narrativa das notícias em televisão. 2003. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Metodista de São Paulo, São Paulo, 2003.

EMERIM, Cárlida; BELARMINO, Joana; SCHOENHERR, Rafael; MOURA, Sandra (org.). Caco Barcellos: 50 anos de jornalismo. Florianópolis, SC: Insular, 2023. 160 p. 

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.