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O que O Diabo Veste Prada 2 conta sobre a credibilidade no jornalismo?

Por Gabriel Bhering, jornalista, pesquisador NJA e doutorando no PPGCOM – UFJF

 

Diabo Veste Prada 2 (2025). Imagem: reprodução

 

Em 2006, O Diabo Veste Prada desenhou um imaginário do que é ser jornalista no mundo todo. O filme dirigido e roteirizado por Aline McKenna é uma adaptação do romance homônimo da autora Laura Weisberger, lançado em 2003. A produção foi realizada a partir de um orçamento de 41 milhões e arrecadou mais de 300 milhões de dólares, tornando-se um clássico de bilheteira. No Brasil, o filme ultrapassou as telonas e incorporou a lista de filmes da Sessão da Tarde da TV Globo, sendo transmitido com frequência na TV aberta. Os telespectadores acompanharam no primeiro filme Andrea Sachs, uma recém-jornalista, correndo pelas avenidas de Nova York, entre um compromisso e outro do seu trabalho na revista Runway. Vinte anos depois, em 2026, a obra firma-se justamente no jornalismo para construir o seu argumento central, tendo em vista a crise que a profissão enfrenta no mundo todo com as transformações tecnológicas: demandando um resgate de sua credibilidade. 

Na primeira década do século XXI, o público acompanhou uma variedade de filmes e séries com personagens jornalistas. É possível citar Homem-Aranha (2002), Smallville (2001), Gilmore Girls (2000), entre tantas outras produções nas quais os protagonistas ocupam redações  jornalísticas. Segundo Travancas (2001), um dos fatores que contribui para esse interesse pela figura do jornalista é a sua estreita relação com o tempo.

“Quando Simmel (1979) cita como características dos indivíduos da cidade superficialidade, anonimato, relações transitórias, sofisticação e racionalidade, é difícil não associá-las ao jornalista. Não que elas sejam exclusivas desta carreira, mas nela se expressam com intensidade. E por isso é possível estabelecer uma relação tão íntima entre este profissional e a cidade” (Travancas, 2001, p. 2). 

À vista do interesse do audiovisual por construir na materialidade artística o cronotopo da cidade, o jornalista representa uma figura potente para tratar as confluências desse espaço urbano. A mobilização dessa figura nos filmes, séries e telenovelas levou o jornalismo a ser compreendido não apenas pelas produções jornalísticas da realidade, mas também pelos jornalistas da ficção. Inclusive, muitos marcaram a opção dessa profissão no vestibular movidos pela emoção da vida de Andrea Sachs. Contudo, ao chegarem nas redações, depararam-se com um cenário bem mais decadente do que aquele apresentado no filme clássico dos anos 2000. 

Vinte anos depois, o telespectador que decidiu ser jornalista por conta desses filmes tem a oportunidade de voltar ao cinema para assistir, dessa vez, a um jornalismo em crise como o que existe na realidade. A continuação do clássico já começa com Andrea Sachs recebendo um prêmio de melhor jornalista e, em meio a essa conquista, sendo demitida juntamente com seus colegas do jornal onde atua. A dicotomia entre a satisfação e a derrota marca a profissão, pois, apesar de a relevância do trabalho de Sachs, conforme o prêmio confirma, do ponto de vista financeiro a profissão não traz a satisfação necessária. 

Meryl Streep e Anne Hathaway em O Diabo Veste Prada. Imagem: Divulgação 20th Century Studios / Foto por Macall Polay

Pelo contrário, Andrea ainda paga aluguel em um apartamento básico e busca estabilidade financeira. Embora estivesse longe de ter a vida dos sonhos, pelo menos estava conseguindo sobreviver em Nova York com um certo reconhecimento pelas suas matérias, quando foi demitida por uma mensagem de texto no celular. Posteriormente ao ocorrido, Andrea Sachs recebe uma oportunidade de retornar a Runway para colaborar na credibilidade posta em cheque. 

Vítima de uma série de abusos morais, a repórter fica tensa antes de assumir a posição de editora de especiais da revista de moda, mas decide encarar os desafios diante da remuneração significativa que o novo trabalho lhe fornece. Ao chegar lá, ela percebe que a arrogância e a prepotência de Miranda Priestly continuam vivas, mesmo diante da fragilidade da imprensa contemporânea. 

A missão de resgatar a credibilidade em crise da revista Runway dialoga com os estudos da coordenadora do Núcleo de Jornalismo e Audiovisual (NJA), Iluska Coutinho. A pesquisadora reconhece esse conceito como fundamental para a legitimidade do jornalismo e resolveu estudá-lo frente à crise e às transformações tecnológicas da profissão. Nesse processo, constatou-se a credibilidade como um valor personalizado que ultrapassa a emissora e encontra-se nos repórteres que utilizam seus perfis pessoais das plataformas digitais para repostar seus trabalhos e também produzir conteúdos pessoais. Nesse contexto, “parte do público alcança outras redes e telas, incluindo espaços em tese do âmbito da vida privada” (Coutinho, 2024, p. 72).

A revista Runway também vive esse momento de múltiplas telas, haja vista que a principal receita não são mais as edições impressas, mas as publicidades publicadas no site, plataformas digitais e afins. Diante disso, Andrea depara-se com um enorme desafio para desenvolver suas matérias aprofundadas sobre temas especiais, pois todos desacreditam que textos longos serão lidos, inclusive a própria editora-chefe, Miranda Priestly. Embora não seja mais a secretária do passado, Sachs precisa lidar com a mesma grosseria daquela época, além de encontrar resiliência para desempenhar esforços e provar o contrário acerca das reportagens especiais. 

Desde o princípio, a jornalista reconhece que a publicidade é fundamental para a revista, mas isso não pode ser, em sua perspectiva, motivo para a banalização de produções jornalísticas que tenham apuração e entrevistas em profundidade para consolidação de matérias relevantes. Afinal, a publicidade sem um jornalismo compromissado acaba sendo apenas um catálogo de anúncios. Frente à defesa do bom jornalismo, a editora de especiais mobiliza esforços para produzir matérias aprofundadas que chamam a atenção dos leitores e, por consequência, contribuem para que os anúncios sejam ainda mais vistos. 

Além de tratar a questão de credibilidade, a continuação prossegue a apresentação das relações de gênero existentes em uma redação, conforme foi observado no primeiro filme por Yamim Paião, Gabriel Bhering e Iluska Coutinho no congresso Fazendo e Desfazendo Gênero (2021), realizado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA – USP). De modo a se afastar de uma visão maniqueísta de bem e mal, o filme expõe algumas camadas na figura de Miranda Priestly. Apesar de ser editora-chefe da revista há anos, Miranda não é a dona do grupo e tem como superior um homem, que falece e deixa a empresa para o filho. Nesse ponto, o longa explora o processo de sucessão da revista e os riscos que a credibilidade sofre nesse processo. Além disso, trata “as cascas grossas” que Miranda precisou adotar como mulher para conseguir estar nessa posição de liderança por tantos anos. 

Questões de gênero, transformações tecnológicas e credibilidade do jornalismo são algumas das temáticas que atravessam a redação da revista Runway na continuação do clássico O Diabo Veste Prada. A partir da chegada de Andrea Sachs para assumir a editoria de especiais, fica claro que é preciso inovar, investir em publicidade, posicionar os conteúdos em múltiplas telas com estratégias de engajamento e afins. No entanto, reforça também que isso só é legítimo se o jornalismo não perder a sua missão principal: contar histórias. Esse valor é inegociável e primordial para a credibilidade dos novos tempos. Andrea Sachs reconhece as transformações, mas não abre mão do bom jornalismo e confirma que é alinhado a esse princípio que as revistas devem se transformar, não somente ancorando-se nos anúncios.

Se a continuação entrar no catálogo da Sessão da Tarde, os jovens brasileiros, à semelhança daqueles do passado que se apaixonaram por essa profissão assistindo ao primeiro filme, vão precisar sonhar com um jornalismo ainda muito concorrente, mas marcado, agora, também, por uma crise severa, a qual provoca intensos desafios. Mesmo os profissionais que conseguem uma vaga como Sachs precisam lidar com a dicotomia do reconhecimento e a discrepância do aspecto financeiro. Não é mais possível seguir nessa área imaginando trabalhar em uma revista Runway como a apresentada no filme de 2006, pois o glamour é afetado não somente por assédios e jogos de poder, mas por uma crise que escancara instabilidade financeira. Certamente, fazer jornalismo não pode deixar o princípio de contar boas histórias de lado, conforme o filme destacou, mas precisa caminhar junto a estratégias de credibilidade que envolvam presença digital, gestão de crise e afins. O telespectador que se apaixonar por essa profissão assistindo ao filme já deve marcar a opção do vestibular, reconhecendo a crise que, naturalmente, vai enfrentar se seguir por uma redação. Um dos segredos é a defesa pelo bom jornalismo, sempre. Sem esse princípio, a profissão se transforma em um emaranhado de anúncios irrelevantes para a democracia. 

 

Referências  

BHERING, Gabriel; ROCHA, Veruska Yasmim Paião; COUTINHO, Iluska. As relações entre as mulheres na redação jornalística da revista fictícia “Runway”: perspectivas de gênero em O Diabo Veste Prada. In: FZDZ Gênero 2021, 2021. Anais […]. 2021.

COUTINHO, Iluska. Credibilidade como valor personalizado no jornalismo. 1. ed. Florianópolis, SC: Editora Insular, 2024. E-book. 97 p.

TRAVANCAS, Isabel. Jornalista como personagem de cinema. In: XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Campo Grande, 2001. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2001.