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O que a mídia vê quando Vinícius Júnior denuncia um caso de racismo?

Por Jean Almeida

Foto: CordonPress / Reprodução

No dia 17 de fevereiro de 2026, Vini Jr. marcou mais um golaço. O atacante brasileiro foi protagonista da vitória do Real Madrid sobre o Benfica, em partida disputada em Lisboa no mata-mata da UEFA Champions League. Mas o espetáculo esportivo se tornou menor; as atenções se voltaram para mais um caso de racismo sofrido pelo jogador. Este episódio reacende não apenas o debate sobre o racismo no futebol, mas também permite pensar sobre como os veículos de imprensa repercutem o caso.

Para Gustavo Luiz Ribeiro, jornalista da Folha de São Paulo, há um problema conceitual na cobertura.

“A imprensa cobre com vigor o crime de injúria, mas não o de racismo”, afirma.

E saber diferenciar os dois termos é essencial. Pela legislação brasileira, injúria racial e racismo foram equiparados, por meio da Lei 14.532, de 2023, mas isso não significa que para a legislação os dois crimes são a mesma coisa. Injúria racial é crime contra um indivíduo, já o racismo é o crime que se comete contra um coletivo. Ao noticiar o caso como “acusação de racismo” direcionada a um jogador específico, parte da imprensa pode incorrer em imprecisão jurídica e prejudicar a cobertura e análise do tema.

O jornalista acredita que o padrão de cobertura está consolidado. Em geral, tem-se: um agressor, uma vítima, um gesto ou palavra ofensiva e uma eventual punição. Esse modelo facilita a narrativa, no entanto, o racismo estrutural é mais difuso. Ele se manifesta na expressiva ausência de treinadores negros na elite do futebol — cenário que, ainda hoje, apresenta raríssimos exemplos, como Jair Ventura, no Esporte Clube Vitória, e Vicent Kompany, treinador belga que atua no Bayern de Munique —, nas recorrentes suspeitas acerca dos critérios de contratação e nas leituras racializadas do comportamento de atletas.

Gustavo lembra que a imprensa ajudou a cristalizar arquétipos históricos de jogadores negros: o “malandro”, o “bad boy”, o hiper disciplinado… E sugere uma categoria contemporânea, a do “negro grande golpe”: atletas que permanentemente são vigiados, aqueles de quem se espera um erro. O jornalista aponta como jogadores que poderiam ser escalados nessa categoria Vinicius Jr, Neymar, Rodrygo, Ryan e Hugo Souza.

Segundo ele, essas molduras simbólicas que estão presentes na cobertura esportiva ajudam a modelar carreiras, pressões e interpretações.

Assim, o desafio para jornalistas e interessados na cobertura esportiva fica evidente: como investigar estruturas sem ficar sujeito a acusações levianas? Como nomear o racismo quando ele não se apresenta em forma de grito explícito? A resposta, segundo o jornalista, passa por mais pesquisas e pelo aprimoramento conceitual do próprio campo jurídico e comunicacional.

Enquanto a injúria paralisa o jogo por alguns minutos, o racismo estrutural raramente interrompe a narrativa. O protocolo esportivo antirracista ergue os braços em “X”. A cobertura, nem sempre. Se o futebol é o palco, o jornalismo é a lente. Faz-se necessário que a lente, além de registrar os episódios, amplie o foco para enxergar o que o sistema o produz.