Nesta semana, de 28 de setembro a 1º de outubro, quatro cine debates integram a programação expandida do Simpósio 80 anos + 1 (Foto: Carolina de Paula)

Na última terça-feira, 22, o Instituto de Ciências Humanas (ICH) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foi palco da conferência de abertura do Simpósio 80+1: a ONU e a nova (des)ordem mundial. O convidado da noite foi o professor Michel Gherman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que associou o legado do genocídio judeu provocado pela Alemanha nazista às tensões atuais envolvendo Gaza e Palestina. Seguida das falas do público e do mediador Marcos Olender, professor da UFJF, a conferência provocou reflexões sobre memória, violência, linguagem e disputas narrativas no contexto contemporâneo.

Michel Gherman defende que o genocídio em Gaza precisa estar no contexto do aprendizado e do legado que o genocídio dos judeus na Europa deixou. “Não discutir Gaza, hoje, ou negar o genocídio em Gaza, pode ser um risco muito grande. O risco de negar, inclusive, o próprio genocídio judaico na Europa”, afirma Michel Gherman.

 Para ele, um dos elementos fundamentais do estudo do genocídio não é o entendimento dos que aconteceram, mas sim a compreensão dos que não podem mais acontecer. “Precisamos nos preparar para entender os sinais iniciais que levariam ao genocídio para evitar que o próximo aconteça”, alerta.

 Abertura dos trabalhos

Para Rodrigo Christofoletti, professor da UFJF e integrante da comissão organizadora, Seminário objetiva discutir o papel da ONU em busca do fortalecimento do multilateralismo e do rechaço veemente das hegemonias e radicalismos (Foto: Carolina de Paula)

Rodrigo Christofoletti, professor do Departamento de História do ICH e integrante da comissão organizadora do seminário, antecipou-se à conferência principal e deu as boas-vindas aos presentes. Em sua fala, contextualizou o momento de incertezas por que passa a ordem internacional criada pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945): guerras, crises humanitárias, disputas geopolíticas, migrações forçadas, tecnologias avançadas e mudanças ambientais colocam em debate, nos dias de hoje, o papel da ONU e das instituições multilaterais – aquelas que buscam cooperação para resolver problemas comuns.

“Embora a ONU seja o epicentro da diplomacia global, hoje o mais importante organismo multilateral do planeta tem sofrido fraturas, algumas delas, expostas. Talvez, a maior delas seja o enfraquecimento do próprio multilateralismo”, afirma Christofoletti. A ONU chega aos seus 81 anos enfrentando fortes limitações diante de conflitos globais de grande escala, como na Ucrânia, no Oriente Médio e no Sudão, além de forte apelo pela reforma do Conselho de Segurança e atrasos de grandes potências no pagamento de suas contribuições obrigatórias.

“Diante dessa (des)ordem mundial e dos multilateralismos enfraquecidos, como reagir às hegemonias nefastas e à expansão dos radicalismos do mundo contemporâneo?”, pergunta o professor.

 Linguagem em disputa

Michel Gherman, o convidado da noite, responde ao questionamento pela via da linguagem em disputa, das narrativas concorrentes e dos sentimentos produzidos. Ele recapitula dramas mundiais, como o 11 de setembro de 2001 e a guerra da Ucrânia, para alertar que o nazismo e a desumanização começam na linguagem.

Gherman explica que o ódio e seus discursos se estabelecem primeiro através de uma gramática de ameaça e ressentimento. Assim, defende que o campo progressista se aproprie da linguagem (e volte a ter capacidade de olhar para as utopias) para reagir às hegemonias nefastas e à expansão dos radicalismos. “A pergunta que eu gostaria de fazer para vocês é: nós temos capacidade de mobilizar desejo na disputa pública da política contemporânea?

“Não discutir Gaza, hoje, ou negar o genocídio em Gaza, pode ser um risco muito grande”, afirma Michel Gherman, historiador e professor da UFRJ (Foto: Carolina de Paula)

Três características das ideologias nefastas ainda estão presentes no comportamento da extrema direita. A primeira delas é o movimento de massas. No caso dos nazistas, a perspectiva ariana; no caso dos fascistas, o passado imaginário; e, na atualidade, o passado mítico (e místico) que precisa ser restaurado.

A segunda questão é o tempo. Segundo Gherman, a extrema direita tem uma profunda relação com a temporalidade. Se o sujeito não quer resgatar um passado para torná-lo um projeto de futuro, então ele deve desaparecer. “É por isso que a extrema direita promove uma perspectiva de extermínio. Não porque ela quer exterminar, somente, mas também porque ela quer a inexistência daqueles que existem: gays, mulheres, imigrantes, judeus, árabes.”

E, por fim, o resgate da linguagem nazista. “Eles (a extrema direita) têm valores constitutivos dessa linguagem alternativa: honra, glória, família. E nós temos os nossos valores: amor, festa, igualdade, convivência, solidariedade, existência, alegria.” A questão, no entanto, segundo Gherman, é que estamos disputando o discurso a partir da racionalidade, e não do desejo. 

Ainda sobre a construção narrativa com base nesses elementos, o professor diz que “tem muita gente colocando a culpa nas redes sociais. Entretanto, eu queria lembrar vocês que Hitler não tinha perfil no Instagram nem comunidade no Facebook”, descontrai Gherman.

Programação expandida

Nesta semana, de 28 de setembro a 1º de outubro, quatro cine debates integram a programação expandida do Simpósio 80 anos + 1. As exibições são acompanhadas de debatedores especialistas no assunto e acontecem no Anfiteatro João Carriço, no Cinema Alameda e no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). As sessões são abertas ao público e a programação completa pode ser vista no site oficial do evento.