Tragédia em Juiz de Fora deixou 66 mortos; profissionais de psicologia se mobilizaram para oferecer apoio (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Profissionais de psicologia em cemitérios, Instituto de Medicina Legal (IML), salão comunitário, bairros inundados e outros ambientes bastante diferentes dos usuais consultórios. A atuação de equipes de saúde mental vai muito além do espaço tradicional, como demonstram as atividades e os 40 trabalhos que serão apresentados no 1º Encontro Mineiro de Psicologia no Contexto de Riscos e Desastres: diálogos e interseções

O evento presencial ocorre nos dias 17 e 18 de setembro, no Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com o Conselho Regional de Psicologia (CRP). As inscrições gratuitas podem ser feitas pelo site eventos.crp04.org.br.

A programação traz minicursos, rodas de conversas, conferência e outros formatos, com profissionais de diversos campos do saber, para refletir e ensinar sobre primeiros socorros psicológicos, respostas a ataques de violência extrema a escolas, apoio a pessoas em luto devido a tragédias e outras situações. 

“A psicologia pode atuar nas diferentes fases, como na prevenção, com ações iniciais para evitar ou reduzir a intensidade de um desastre, na fase de resposta, com ações imediatas, durante ou logo após o desastre; bem como na recuperação ou reconstrução, uma etapa de longo prazo para se restaurar o cenário, momento pelo qual nosso município de JF se encontra”, explica a professora Fabiane Rossi, pró-reitora adjunta de Assistência Estudantil e uma das coordenadoras do evento.

No entanto, ciente da complexidade envolvida em desastres, o Encontro não é voltado apenas a estudantes e profissionais de psicologia. Mas também a outros trabalhadores de saúde mental, gestores públicos, representantes de instituições que atuam no campo de emergências e desastres e às próprias pessoas atingidas por eventos extremos. 

Fevereiro de 2026
A escolha de Juiz de Fora para sediar a primeira edição do Encontro tem relação direta com a tragédia socioambiental ocorrida, no município, em fevereiro de 2026. A cidade sofreu com deslizamentos de encostas e enchentes, ocasionando 66 mortes. Nesse momento, equipes de saúde mental se mobilizaram para contribuir com escuta qualificada, amparo e orientações. “O que aconteceu em Juiz de Fora no início deste ano reforçou muito essa necessidade [do Encontro]”, ressalta a psicóloga Tatiane Melo, uma das coordenadoras do evento junto ao CRP.  

Psicóloga Tatiane Melo coordena comissão no CRP sobre riscos e desastres (Foto: arquivo pessoal)

“A proposta do Encontro nasce de uma preocupação que vem crescendo à medida que os riscos e desastres passam a fazer cada vez mais parte da nossa realidade. Os rompimentos de barragens, as grandes enchentes e os efeitos da crise climática estão mostrando que precisamos pensar não apenas em como responder a esses acontecimentos quando eles ocorrem, mas também em como diferentes áreas profissionais estão preparadas para lidar com eles”, explica Tatiane.

Coordenadora da Comissão de Orientação em Psicologia na Gestão Integral de Riscos, Emergências e Desastres do CRP, a profissional compreende que o Conselho tem papel importante na preparação da categoria para uma prática responsável, qualificada e eticamente orientada e, ao mesmo tempo, articulada com outras áreas e instituições. 

Programação
No primeiro dia, os minicursos capacitarão os participantes em temas como primeiros socorros psicológicos, atuação do profissional em hospitais durante situações críticas e atendimento a trabalhadores em emergências e desastres. 

À noite, a partir das 19h45, a conferência de abertura sobre o tema “Da crise à reconstrução: a atuação da psicologia no campo das emergências e desastres” será proferida pela psicóloga Sarah Vieira Carneiro. Coordenadora do Núcleo de Resposta e Reconstrução de Comunidades Escolares do Ministério da Educação (MEC), a profissional atua há 18 anos no enfrentamento de situações extremas, como em ataques a escolas e acidente aéreo. 

O segundo dia começa com discussões acerca da formação em psicologia ante à crise climática, riscos e desastres. Ainda hoje são observadas lacunas na formação de profissionais para atuar nesse cenário. O despreparo pode ocasionar intervenções inadequadas nesses momentos, que já são críticos. “Isso envolve, sobretudo, garantir o respeito à dignidade, à autonomia e aos direitos das pessoas atingidas, evitando intervenções improvisadas ou que possam produzir novas formas de violência e revitimização”, reforça Tatiane Melo.

Em seguida, haverá apresentações de trabalhos, organizados em dez grupos. As produções abordam racismo ambiental, memória, conduta ética e relatos de experiência relacionados a ataques de violência extrema em escolas brasileiras. 

Professora Fabiane Rossi explicará sobre atuação da psicologia em IML de Juiz de Fora, em apoio a vítimas

Uma das apresentações contará sobre o apoio oferecido, no IML de Juiz de Fora, pelo projeto “Enlutar”, de acompanhamento psicológico a pessoas em luto, vinculado ao Departamento de Psicologia da UFJF. A equipe se mobilizou para amparar familiares e amigos de vítimas da tragédia local durante o reconhecimento de corpos e velório das vítimas. “Posteriormente foi também realizado acompanhamento psicológico de familiares e sobreviventes do desastre, por meio dos projetos Enlutar e Enlutinho (atendimento infantil)”, acrescenta a professora Fabiane Rossi, coordenadora das iniciativas.

O evento prossegue com rodas de conversa que buscam abarcar a complexidade envolvida nesse campo de desastres e tragédias. Aborda os impactos em razão de deslocamentos forçados devido, por exemplo, a enchentes; os limites e os potenciais de políticas públicas voltadas para prevenção e resposta a tragédias, bem como a própria saúde mental de quem atua nessas situações.  

Duas rodas de conversa terão como foco os maiores desastres de mineração, em Minas Gerais, ocorridos em Mariana e Brumadinho. Ambas destacam a importância de incorporar a participação ativa das populações atingidas em todas as fases, da prevenção à reconstrução, e trazem estudos produzidos ao longo dos anos, incluindo aqueles produzidos após as fases iniciais. “Ainda que o foco de interesse da maioria dos profissionais esteja voltado para a fase de resposta, a recuperação tem se mostrado um campo com grande demanda de atuação em saúde mental”, ressalta Tatiane Melo. A segunda roda de conversa relacionada a desastres de mineração terá a presença de profissionais atingidos por esses desastres, “possibilitando que os próprios atingidos tenham espaço e voz para relatarem suas vivências”. 

O cinema também tem espaço no Encontro, com a exibição de dois documentários, seguida de reflexões. Uma das produções é  “Joelma: a Voz dos Heróis”, de 2024, realizada pela Rede Câmara SP e a TV Cultura. A obra traz relatos sobre o incêndio no edifício Joelma, ocorrido em São Paulo, em 1974, que deixou 187 mortos. A atividade propõe uma reflexão sobre os impactos humanos e psicossociais dos desastres, a experiência de sobreviventes e de familiares e a importância de preservar a memória desses acontecimentos. Aponta ainda as transformações ocasionadas nas áreas de prevenção e respostas a emergências contra incêndios após o caso Joelma ter se tornado emblemático. 

O Encontro será encerrado com a apresentação do Quilombo de Gesteira, localizado no município de Barra Longa (MG), atingido pela lama de rejeitos de mineração da Vale, Samarco e BHP Billiton. Os detritos encobriram casas, escola, igreja e plantações e contaminaram córregos. Após dez anos, finalmente a comunidade quilombola foi incluída, em junho de 2026, em um acordo de reparação. 

Confira a programação completa do Encontro.

Outras informações:
eventos.crp04.org.br

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