
“Baobás: raiz firme faz a árvore forte” foi coordenado e produzido pela historiadora e técnica-administrativa em Educação da UFJF, Vanessa Lopes (Foto: arquivo pessoal)
Existem histórias que sobrevivem porque foram escritas. Outras, porque atravessaram gerações na força da palavra, da escuta e da memória. Há ainda aquelas que só permanecem vivas no registro audiovisual dessas memórias, antes que sejam apagadas pelo tempo ou pelo perecimento. É desse ideal que nasce o documentário “Baobás: raiz firme faz a árvore forte”, que estreia 10 de agosto, às 18h30, no Teatro Paschoal Carlos Magno, em Juiz de Fora, com entrada gratuita.
Segundo a coordenadora e produtora executiva do projeto, Vanessa Ferreira Lopes, que também é historiadora e técnica-administrativa em Educação (TAE) da Diretoria de Ações Afirmativas (Diaaf) da UFJF, o documentário reúne histórias que contribuem para a construção da memória coletiva do município. “Tínhamos o desejo de produzir um filme que tivesse como centralidade a velhice negra de Juiz de Fora. A ideia é valorizar histórias, afetos, experiências e contribuições que fazem parte da memória da cidade, mas que muitas vezes não ganham a visibilidade que merecem. Ao mesmo tempo, é uma forma de combater o estigma e a marginalização que frequentemente atravessam as representações sobre o envelhecimento da população negra”, explica Vanessa, ao acrescentar que o trabalho vem como um desdobramento de várias frentes desenvolvidas no Departamento de História da UFJF com os pesquisadores Giovana Castro e Luan Pedretti.

Giovana Castro, idealizadora, pesquisadora e roteirista de Baobás: raiz firme faz a árvore forte, durante as gravações do documentário (Foto: Arquivo pessoal)
Baobás traz histórias contadas pelo olhar de Nair Francisca, Anésia da Silva, Helena Cassimiro, Zuleika Vieira (in memoriam), Lúcia Vitorino, Nilson Gonzaga, Jorge Paulo e Efigênio Evaristo, todos com mais de 80 anos. A partir de suas vivências, eles constroem uma narrativa das transformações da cidade, preservando memórias, saberes e experiências que atravessam diferentes gerações. Uma espécie de “escrevivência”, conceituada pela imortal Conceição Evaristo para expressar experiências individuais que eternizam as vivências de toda uma coletividade.
“É uma forma de combater o estigma e a marginalização que frequentemente atravessam as representações sobre o envelhecimento da população negra”, Vanessa Lopes
As trajetórias são diversas. “Alguns vivem em lares amorosos, cercados por companheiros e familiares; outros estão em lares compartilhados, atravessados por redes de cuidado e pela convivência com outras pessoas idosas. São experiências distintas, que nos ajudam a perceber a complexidade da velhice negra e as diferentes formas de envelhecer.”
Uma dessas histórias é da centenária Zuleika Vieira, ou Zuzu, que morreu em junho deste ano, antes de conseguir se assistir nas telas. Dona de uma vida longa e de uma personalidade marcante, Zuleika aprendeu, ao longo de um século, que também se pode envelhecer fazendo o que se quer, dizendo o que se pensa e escolhendo, quando e como, aquilo que se deseja contar.

Zuleika Vieira, conhecida como Zuzu, é uma das protagonistas de Baobás, documentário que preserva histórias e memórias da população negra de Juiz de Fora (Foto: Arquivo pessoal)
Interface com a pesquisa
O projeto também se origina da pesquisa universitária. Grande parte da equipe possui uma trajetória acadêmica ligada ao Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI) da UFJF desde a sua formação, em 2018, com a chegada da professora Hebe Mattos ao Departamento de História. Vanessa conta que o grupo esteve envolvido na construção do projeto “Juiz de Fora, Cidade Negra“, sobre as memórias e as trajetórias negras na cidade.
“Já contávamos localmente com uma produção importante, mas muito desse material estava disperso e difícil de localizar. Por isso, uma das propostas foi justamente mapear aquilo que já foi produzido e publicado sobre e pela população negra da cidade e, a partir daí, construir um acervo digital que facilite o acesso a esse conhecimento e também incentive novas pesquisas sobre a temática”, explica a historiadora. Para além do filme, ela expressa sua preocupação de que as entrevistas possam permanecer como fontes de pesquisa e de memória, acessíveis para outras pessoas e para futuras gerações.
Seu contato enquanto historiadora com a metodologia da História Oral começou ainda no início da graduação e se estendeu ao longo do mestrado e de outros trabalhos que desenvolveu como agente cultural. “Esse percurso parte também de uma constatação que foi ficando cada vez mais evidente para mim: a fragmentação e a ausência de registros documentais sobre a população negra nos acervos históricos.Isso está relacionado às próprias dinâmicas de hierarquização sociorracial que atravessam o nosso país e também a nossa cidade.”

Ao revisitar fotografias e lembranças, Jorge Paulo compartilha memórias que ajudam a contar a história da população negra de Juiz de Fora (Foto: Arquivo pessoal)
Resistência e ancestralidade
O título do filme traz o baobá, árvore sagrada em diferentes culturas africanas, considerada símbolo de vida, resistência e ancestralidade. Capaz de atravessar séculos, ela também representa o lugar onde comunidades se reúnem para compartilhar saberes, tomar decisões e manter viva a tradição oral. “É uma árvore que consegue sobreviver por milhares de anos, mesmo em condições muitas vezes hostis e que carrega consigo um forte simbolismo de vida, resistência e conexão entre o mundo material e o espiritual. É também uma árvore que, pela sua dimensão, oferece grandes sombras onde as comunidades podem se reunir, tomar decisões e compartilhar saberes”, explica Vanessa.

Integrantes da equipe técnica durante as gravações de Baobás, documentário realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo. (Foto: Arquivo pessoal)
É sob o baobá que a oralidade se transforma em uma forma de transmissão de conhecimentos entre gerações. “Em um mundo cada vez mais fluido, marcado por certezas provisórias e pela fragmentação das identidades, a destruição e o apagamento das memórias afetam diretamente as nossas possibilidades de acessar determinadas histórias. Por isso, o Baobás nasce também de um sentimento de profundo respeito e reverência por essas memórias e pelas histórias de vida que encontramos.”
Baobás é um média-metragem documental realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio da Funalfa, em Juiz de Fora. Todos os demais membros da equipe têm a formação acadêmica na UFJF, majoritariamente no Instituto de Artes e Design (IAD) e da Faculdade de Comunicação.
A equipe técnica é formada por:
- Argumento e Pesquisa: Giovana Castro e Vanessa Lopes
- Direção de Audiovisual: Letícia Silva
- Assistência de Direção: Isabela Ohana
- Roteiro: Giovana Castro e Letícia Silva
- Produção Executiva e Coordenação Geral: Vanessa Lopes
- Assistência Executiva e de Pesquisa: Luan Pedretti
- Direção de Fotografia: Maiteux Zanela
- Still: Anna Júlia Lourenço
- Edição e Pós-Produção: Camila Mathias
- Direção de Som: Heloisa Carvalho
- Produção de Set: Vanessa Lopes
- Intérprete de Libras: Andressa Maria
Outras informações: Baobás: raiz firme faz a árvore forte
