
Pesquisadora Maribel Navarro coordena o Laboratório de Química Bioinorgânica e Catálise (LaQBIC), do Departamento de Química da UFJF. (Foto: UFJF)
Malária, doença de Chagas e leishmaniose são enfermidades que fazem parte das chamadas Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs). O termo refere-se à falta, por parte das indústrias farmacêuticas, de investimentos em pesquisa, desenvolvimento de medicamentos e vacinas de enfermidades infecciosas e parasitárias que afetam, prioritariamente, populações de baixa renda e países em desenvolvimento.
No Brasil, a malária registra mais de 140 mil novos casos por ano, concentrados principalmente na Amazônia. A doença de Chagas afeta o estimado de um a quatro milhões de brasileiros, a maioria dos casos crônicos e silenciosos, com maior concentração em estados como Minas Gerais, Goiás e Bahia. Já a leishmaniose soma cerca de 13 mil novos casos anuais com o surgimento de lesões e úlceras na pele e nas mucosas, fase que antecede o estágio visceral de alta letalidade que afeta órgãos internos como o baço, fígado, rins e medula óssea.
É para enfrentar esse cenário – e deixar essas doenças menos negligenciadas – que pesquisadoras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) desenvolvem estudos em busca de novas alternativas de tratamento. No 28º episódio do IdPesquisa, já disponível no YouTube e Spotify, conheça a professora Maribel Navarro, coordenadora do Laboratório de Química Bioinorgânica e Catálise (LaQBIC), do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas (ICE) da UFJF.
A professora está entre os 2% de cientistas mais influentes do mundo, segundo ranking internacional da Universidade de Stanford (EUA). A lista, que considera tanto o impacto acumulado ao longo da carreira, quanto o obtido no ano de 2024, avalia a relevância da produção científica em escala global de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento.
“Chica” de ouro, mas não só
Maribel nasceu em Maracaibo, na Venezuela, cidade localizada a mais de 700 quilômetros da capital Caracas. Durante o doutorado, no Instituto Venezuelano de Investigaciones Científicas (Ivic), deparou-se com a oportunidade de trabalhar com o desenvolvimento de compostos metálicos para o tratamento de doenças parasitárias. Após 16 anos na área da pesquisa, trabalhou na Austrália em projetos para a indústria até voltar para a América do Sul e trabalhar por três anos no Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) com o que realmente gosta: a química inorgânica medicinal aplicada a doenças parasitárias.

Em laboratório, equipe da UFJF pesquisa compostos metálicos para o desenvolvimento de medicamentos contra doenças de chagas, malária e leishmaniose (Imagem IdPesquisa)
Assim que Maribel entrou no Departamento de Química da UFJF, em 2017, criou o Laboratório de Química Bioinorgânica e Catálise (LaQBIC). Ali, a professora e seus orientandos dão continuidade ao trabalho de sintetizar compostos que são bons candidatos ao desenvolvimento de metalofármacos, medicamentos que contêm íons de metais em sua estrutura química. Funciona assim: os pesquisadores combinam moléculas com potencial terapêutico a determinados metais para criar um novo composto, com propriedades capazes de tornar o tratamento a essas doenças mais eficiente.

No LaQBIC, moléculas e metais são combinados para criar novos compostos com potencial para ampliar a eficácia de tratamentos contra doenças negligenciadas (Imagem IdPesquisa)
Entre os metais estudados estão ouro, zinco, prata, platina e paládio. Cada um deles pode conferir características diferentes ao medicamento, dependendo da doença e do objetivo. E além de aumentar a eficácia do tratamento, os metalofármacos podem reduzir efeitos colaterais, permanecer por mais tempo no organismo e até atuar em diferentes ciclos de vida do parasita.
Segundo Maribel, os metalofármacos do LaQBIC são mais ativos e menos tóxicos que o fármaco livre. Para sintetizar híbridos metálicos, o laboratório começou a trabalhar com o ouro, metal que, até há pouco, era um dos mais ativos contra os parasitas da malária, doença de Chagas e leishmaniose. “Ao menos em nosso resultado”, afirma a professora.
Malária: novos compostos para melhores tratamentos

Luana Vanessa Daniel é pesquisadora de doutorado do LaQBIC e sua pesquisa contribui para a descoberta de novos medicamentos mais eficazes e seguros contra a malária (Foto: Arquivo pessoal)
Luana Vanessa Daniel é doutoranda em Química na UFJF e integra o grupo de pesquisa da professora Maribel desde março de 2021. No LaQBIC, desenvolve pesquisa com foco na síntese e caracterização de metalofármacos contendo amodiaquina e atovaquona, dois fármacos utilizados no tratamento da malária. Atualmente, Luana realiza a síntese desses compostos, sua caracterização por diferentes técnicas físico-químicas e estudos para avaliar suas propriedades biológicas e investigar seus possíveis mecanismos de ação.
“O principal objetivo do meu trabalho é desenvolver novos compostos metálicos que apresentam maior atividade contra o parasita e que possam atuar por diferentes mecanismos, contribuindo para superar problemas como a resistência aos medicamentos atualmente disponíveis”, pontua a doutoranda.
A malária continua sendo uma das doenças infecciosas que mais causa mortes no mundo, especialmente em países em desenvolvimento. Nesse contexto, os estudos de Luana buscam contribuir para a descoberta de novos candidatos a medicamentos mais eficazes e seguros. E, embora seja um trabalho de pesquisa básica, pode embasar o desenvolvimento de futuros tratamentos, “ajudando a combater a resistência do parasita aos fármacos atuais e, consequentemente, melhorando a qualidade de vida de milhares de pessoas afetadas pela doença”, enfatiza Luana.
Desafio da resistência do parasita
Larissa Calabreze é orientanda de mestrado da professora Maribel e sua pesquisa também é voltada ao desenvolvimento de metalofármacos para melhores tratamentos da malária. No laboratório, Larissa sintetiza e caracteriza esses compostos para, depois, investigar como eles atuam contra o (resistente) parasita responsável pela doença.
“O principal objetivo da minha pesquisa é avaliar como a combinação de um metal com medicamentos já utilizados no tratamento da malária, como a cloroquina, pode melhorar suas propriedades e contribuir para o desenvolvimento de alternativas terapêuticas mais eficazes”, explica. Atualmente, Larissa trabalha com os fármacos cloroquina, primaquina e mefloquina, e os metais zinco e prata.

Sob orientação da professora Maribel, Larissa Calabreze estuda como a combinação de metais e medicamentos já utilizados no tratamento da malária pode contribuir para o desenvolvimento de alternativas terapêuticas mais eficazes (Imagem IdPesquisa)
Para Larissa, o que mais a motiva na pesquisa é a possibilidade de gerar conhecimento que, no futuro, pode beneficiar a sociedade. “Embora meu trabalho seja uma pesquisa de base, ele busca compreender como esses compostos se comportam e como podem servir de base para o desenvolvimento de tratamentos mais eficientes, com menos efeitos colaterais e de modo a diminuir essa resistência aos medicamentos tradicionais”, afirma.
Realidade e futuro
Para um futuro não muito distante, a professora espera que os metalofármacos mais promissores desenvolvidos pelas pesquisadoras e pelos pesquisadores do LaQBIC sejam transferidos para a indústria farmacêutica brasileira, permitindo o avanço para as fases clínicas da pesquisa. A longo prazo, a expectativa é que esses compostos se tornem medicamentos capazes de beneficiar as pessoas que sofrem de doenças infecciosas.
A entrevista completa com a professora está disponível também no Spotify. Confira no link abaixo.
