‘Aquilo que fazemos com a água inevitavelmente é aquilo que queremos ser’, professor Fabio Roland, na abertura do 20º Congresso Brasileiro de Limnologia (Foto: Carolina de Paula/UFJF)

“Há alguma coisa errada quando um rio tem de provar que precisa e merece continuar vivo. Toda civilização escreve sua biografia às margens de seus rios.” O estarrecimento é do professor Fabio Roland, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), na abertura do 20° Congresso Brasileiro de Limnologia (CBL), na noite desta última segunda, 20, no Cine-Theatro Central.

Limnologia é uma ciência que estuda ecossistemas aquáticos, como rios, lagos e pântanos. Expansão urbana, poluição, falhas ou ausência de saneamento básico, canalização e corte de matas em suas margens são alguns dos fatores que tiram a vida de rios. E a indignação quanto à reafirmação da sobrevivência de cursos d’água não é apenas de Roland. Cerca de 1.400 inscritos no evento fazem coro ao convidado da noite, que teve também a participação, por meio de videochamada, do pesquisador José Galizia Tundisi, referência na área.

Lamentando não estar presente por motivo de saúde na família, Tundisi apontou que milhares de pessoas, no mundo, sofrem de problemas respiratórios simplesmente por não terem água para lavar as mãos, conforme a Organização das Nações Unidas (ONU).  É uma das inúmeras consequências de crise e falência hídricas. Reforçou a necessidade de transdisciplinaridade para avançar na compreensão dos processos ecossistêmicos, a exemplo da soma de saberes de engenharia, geologia e tecnologia da informação.

Também por meio de vídeo, o iraniano Kaveh Madani disse que estudos, na área, devem estar atentos à realidade local e que cientistas devem se esforçar para influenciarem decisões políticas. Destacou que, mesmo países com recursos hídricos abundantes, como Brasil e Canadá, há distribuição injusta desse elemento vital não apenas para sobrevivência, mas também para cultura, espiritualidade e economia. “Cerca de 70% da água doce estão nas mãos de agricultores”, disse. Ou seja, há uso da água para produção alimentício, mas o acesso e controle desse recurso permanecem desiguais.  

“Aquilo que fazemos com a água inevitavelmente  é aquilo que escolhemos ser. Vivemos num mundo estranho. Jamais produzimos tanto conhecimento,  jamais dominamos tantos satélites. No entanto, nunca convivemos com tantas pessoas sem água segura para viver”, reforçou Fábio Roland, responsável, segundo o professor Nathan Barros, da UFJF, por ter inserido Juiz de Fora, no mapa nacional da limnologia. 

Presidente do evento, professor Nathan Barros (UFJF), agradeceu os apoios recebidos para a realização da 20ª edição do congresso (Foto: Carolina de Paula/UFJF)

A fala dos convidados foi precedida pelos discursos da presidente da Associação Brasileira de Limnologia (ABLimno), Andrea Figueiredo, do secretário da entidade e professor da Faculdade de Engenharia da UFJF, André Amado, e do presidente do 20º Congresso,  professor Nathan Barros. Reforçaram a relevância da associação e sua capacidade de transformar a sociedade e agradeceram os apoios obtidos para a realização do evento. Amado citou ainda tragédia vivida por Juiz de Fora, em fevereiro deste ano. 

A noite foi encerrada, no Central, com apresentação de música instrumental do Trio Madeira Brasil, entre chorinho e flamenco. O trio é composto pelo professor de Música da UFJF José Paulo Becker, no violão; Ronaldo do Bandolim, no bandolim; e Marcello Gonçalves, no violão de 7 cordas.

Esta é a segunda vez que a UFJF sedia o CBL – a primeira foi em 2003. O evento nasceu em terras mineiras – ou águas mineiras – em Belo Horizonte, há exatos 40 anos. A edição 2026 prossegue até a esta sexta, 24, com palestras, conferências, minicursos e outras atividades, no campus, principalmente na Praça Cívica. Confira a programação completa. 

Pesquisador José Galizia Tundisi, por meio de videochamada, vê a aproximação entre ciências diferentes, como tecnologia da informação e limnologia – um meio para avanços (Foto: Carolina de Paula/UFJF)


Outras informações:
20º Congresso Brasileiro de Limnologia
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