
Pesquisadora Marta Castello Branco coordena o grupo de pesquisa Música, Cultura e Sociedade, em que estuda expressões musicais em diálogo com contextos humanos. (Foto: idPesquisa)
O resgate de músicas antigas e quase esquecidas cumpre duas metas principais: num primeiro momento, recuperar o legado musical que está prestes a se perder; depois, ter o entendimento crítico daquela música. Trabalho de pesquisa que revela e ensina sobre o tempo, o espaço e o contexto político e social de um povo. No caso da pesquisadora Marta Castello Branco, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), do povo brasileiro.
Marta é professora do Departamento de Música e do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens (PPGACL) do Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF e se dedica a recuperar acervos históricos e reconstruir obras musicais. No 27º episódio do IdPesquisa, disponível no YouTube e Spotify, conheça as reflexões da pesquisadora e saiba porque o resgate de obras esquecidas pode revelar mais que partituras deterioradas.
Musicalidade decolonial e brasileira
Formada em flauta transversal, Marta estudou em Belo Horizonte, depois em Salvador e passou quase dez anos na Alemanha antes de retornar ao Brasil como docente da UFJF. Aqui, a professora coordena o grupo de pesquisa Música, Cultura e Sociedade, em que ela e seus alunos estudam as relações entre sons, saberes, grupos sociais e interfaces das artes sonoras.
Além disso, Marta também se dedica a pesquisar a música de Frei Pedro Sinzig, compositor, musicólogo e pesquisador alemão que viveu no Brasil entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Apesar de ter fundado a Academia Brasileira de Música e escrito o primeiro dicionário musical do país, hoje a obra de Frei Pedro é pouco conhecida fora dos ambientes franciscanos.
Neste episódio do IdPesquisa, Marta conta sua história pessoal e destaca o caráter decolonial da atuação de Frei Pedro, que valorizou e divulgou a música brasileira, incluindo manifestações populares e afro-brasileiras em suas pesquisas e publicações. O frade escreveu músicas sacras, seculares brasileiras e também textos que, segundo a professora, eram politicamente muito ousados.
De acordo com Marta, o amor e a dedicação que Frei Pedro tinha com a música brasileira a deixa em uma situação de perceber o quanto a diversidade não pode ser associada ao lugar de nascimento das pessoas. “Isso é uma forma de preconceito, um dos grandes equívocos no pensamento musical hoje”, afirma. Para ela, a maneira como a pessoa lida com a música é que vai dizer qual é a postura que ela assume.
“Ele teve, por exemplo, uma postura de obrigar ao brasileiro a ouvir a música de concerto europeu? Muito pelo contrário. Ele se dedicou a vida toda a divulgar a música brasileira. Ele criou escolas no Brasil para ensinar essa música brasileira. Ele publicou dezenas de livros e de partituras que divulgavam essa música. Então, essa postura, ainda que venha de um alemão, é colonial ou decolonial? Claramente ela é decolonial”, explica.
Os Congadeiros de Minas e a construção das suas próprias narrativas
O grupo de pesquisa da professora Marta é composto por integrantes de diferentes perfis e níveis de formação. Há graduandos, mestrandos, doutorandos e também outros professores. Para lidar com tantas pessoas e abraçar, ao menos um pouco, a diversidade cultural existente, o grupo busca interesses musicais distintos para pesquisadores distintos.
“Não existe música isenta de sentido social. Não existe música isenta da expressão que permite às pessoas reconhecer e construir suas próprias identidades.” – professora Marta Castello Branco
A partir disso, fazem os levantamentos necessários – como bibliográfico, de gravação musical, entrevistas, escuta, trabalho de campo – e quando é o caso do interesse do pesquisador se tratar de um grupo social específico que pratica aquela música, o trabalho é feito em conjunto pelo grupo de pesquisa e o referido contexto humano.
Juliana Costa é uma dessas pesquisadoras. Ela está no grupo da professora Marta desde que ingressou como sua orientanda no doutorado em Artes, Cultura e Linguagens do IAD. Sua pesquisa é sobre o Congado Mineiro, mais especificamente sobre as produções fonográficas (de sons) que têm o Congado como figura central. O objetivo é demonstrar como registros dos anos finais do século XX e iniciais do século XXI contribuíram para a construção de um protagonismo dos congadeiros de Minas Gerais nas produções de suas próprias narrativas.

Juliana Costa pesquisa sobre o Congado Mineiro, mais especificamente sobre as produções fonográficas (de sons) (Foto: Arquivo pessoal)
No momento, a doutoranda realiza a busca e análise de gravações etnográficas que foram transformadas em discos, como o material produzido por Mário de Andrade, na década de 1930, e o material da Associação Cultural Cachuera!, do final dos anos 1990. Paralelamente, já trabalha na análise de discos produzidos pelos próprios congadeiros, como o álbum “Aparecida, Reinos Negros”, lançado em 2017 por três tradicionais guardas de Belo Horizonte (MG).
Segundo a pesquisadora, por muito tempo o Congado Mineiro foi estudado, gravado e apresentado ao mundo por pessoas externas às comunidades do Reinado, como pesquisadores, folcloristas e produtores musicais. Esses trabalhos foram de grande valia para os conhecimentos gerados sobre as manifestações congadeiras e, em certa medida, até para a própria salvaguarda das festas do Rosário. Mas Juliana e o grupo de pesquisa da professora Marta observaram que os congadeiros quase sempre são objetos do olhar dos outros e pouco são autores das suas próprias narrativas.

Objetivo da pesquisa é demonstrar como registros dos anos finais do século XX e iniciais do século XXI contribuíram para a construção de um protagonismo dos congadeiros de Minas Gerais nas produções de suas próprias narrativas (Foto: arquivos)
“Minha pesquisa procura documentar e reconhecer uma mudança importante neste sentido, onde os próprios congadeiros passam a produzir seus materiais fonográficos ou audiovisuais, contando histórias e cantando suas músicas da maneira que consideram correta, e, ao invés de serem convidados em trabalhos artísticos de nomes consagrados da música brasileira, são eles que passam a convidar estes artistas para participarem de seus trabalhos”, explica Juliana.
Isso tem consequências reais para a vida das comunidades, pois registra e valoriza essa virada de protagonismo, dando visibilidade acadêmica a algo que as comunidades já vinham construindo por si mesmos. Além disso, “a pesquisa pode fortalecer argumentos que os congadeiros usam ao reivindicar recursos em editais ou espaços culturais e sociais e pode contribuir para a memória coletiva das comunidades ao sistematizar uma trajetória que vai da documentação etnográfica ao protagonismo fonográfico”, afirma.
Por fim, pontua a pesquisadora, ao mostrar que práticas culturais afro-brasileiras historicamente marginalizadas são capazes de ocupar espaços antes a eles negados, como um estúdio profissional, por exemplo, a pesquisa pode contribuir para combater o racismo cultural que por séculos determinou quem tem direito ou não de falar sobre a própria cultura.
Festival de Música Popular de Juiz de Fora
Segundo a professora Marta, a Universidade torna possível observar os diferentes grupos humanos. Eles podem ser religiosos, por exemplo, como acontece no Catolicismo de fundo da investigação que faz de Pedro Sinzig ou nas tradições de matriz africana que permeiam o Congado estudado por Juliana. Mas não precisam ser necessariamente relacionados à religião. Os grupos humanos estudados podem ser relacionados a comunidades que fazem samba, rap, funk, música popular e outras expressões.

Daniel Santos se dedica a recontextualizar historicamente o Festival de Música Popular de Juiz de Fora. (Foto: arquivo pessoal)
Esse é o caso do Daniel Santos, doutorando que integra o grupo da professora Marta desde 2025 e se dedica a recontextualizar historicamente o Festival de Música Popular de Juiz de Fora. Ele trabalha com as edições de 1968 a 1972 e atualmente investiga o acervo do jornal Gazeta Comercial, no Memorial da República Presidente Itamar Franco.
Além da pesquisa documental reconstruir a história do festival nos seus aspectos gerais, o trabalho de Santos busca fazer um recorte racial do tema. Busca evidenciar os músicos negros que marcaram presença na história da música popular de Juiz de Fora e do cenário nacional.

2º Festival da Música Popular Brasileira, Cine-Theatro Central. Juiz de Fora, em junho de 1969. (Foto autoria provável: Roberto Dornellas ou Jorge Couri/Blog Maria do Resguardo)
“Meu trabalho auxilia na preservação da memória desse evento que foi tão relevante culturalmente para a cidade. Mais do que isso, busca, principalmente, um resgate histórico-racial ao trazer destaque para os músicos negros que participaram do festival. Contribuindo para o reconhecimento desse legado, que pode refletir também na construção de identidade atualmente”, aponta o pesquisador.
Esperança para o futuro
“Muito humildemente, se eu puder compartilhar com vocês a minha esperança para o futuro…”. Marta, no encerramento do episódio – que também pode ser ouvido de forma comentada no Spotify – compartilha um desejo pessoal com os ouvintes: “que a gente possa cada vez mais cuidar da salvaguarda das músicas do Brasil”. A pesquisadora deseja que a sociedade tenha cada vez mais interesse em expressões sonoras de grupos sociais distintos e que reconheça a importância de se preservar esses acervos
“Porque quando a gente trabalha com pesquisa é muito claro que o pesquisador não é uma ilha, ele não é isolado e ele não vai dar conta de tudo sozinho. Quando eu trabalho com a música do Frei Pedro Sinzig, por exemplo, para mim é como se eu tivesse olhando para a finitude da minha própria existência a todo momento”, reflete a professora.
