Uma iniciativa extensionista tem aproximado a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e os moradores do Dom Bosco, bairro vizinho ao campus sede da instituição. É o Projeto Museu de Território, cujos objetivos principais são preservar a memória e a história do município, valorizar e ampliar as oportunidades da comunidade, além de aprimorar a formação dos estudantes de graduação.

Luciane Oliveira é a pesquisadora convidada do Projeto e curadora do Museu de Arqueologia e Etnologia Americana da UFJF. (Foto: Maria Eduarda Moura – Museu de Território)
“O Museu de Território está dentro da perspectiva da museologia social. No lugar de um prédio ou uma edificação, compreende todo o território. No caso aqui, o Dom Bosco, toda a dimensão do bairro, justamente porque são as memórias, lembranças e histórias da comunidade que fazem referência a esse patrimônio, esse legado cultural”, explica Luciane Monteiro de Oliveira, pesquisadora convidada e membro da Comissão Curadora do Museu de Arqueologia e Etnologia Americana da UFJF.
Luciane rememora que sempre escutou muitas histórias sobre o Dom Bosco e o desejo de saber mais sobre o bairro foi acentuado ao longo do tempo, principalmente depois de tornar-se aluna e pesquisadora na Universidade, a partir dos anos de 1990. “A gente tinha uma referência interessante, porque, quando descia pela Avenida Itamar Franco, logo tinha a bica onde as mulheres lavavam e dependuravam as suas roupas. A gente via essa proximidade de uma vida real e que nos aproximava enquanto estudantes. Além disso, desde criança, eu ouvia que o Dom Bosco era um quilombo, que os ex-escravizados das fazendas, ao redor de Juiz de Fora, vieram para cá. Eu sempre via esse potencial aqui”, conta
O que era uma ideia sobre um potencial museológico tornou-se, em 2025, um projeto de extensão universitária, depois que a pesquisadora estabeleceu uma parceria com o docente do Departamento de Turismo e atual coordenador do Museu de Território Dom Bosco, Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior. Juntas, a parceria e a formalização, converteram-se em atividades de extensão, ensino e pesquisa, que envolvem, atualmente, cerca de 25 pessoas, entre docentes, estudantes de graduação e moradores.
Contribuição mútua

Coordenador do Projeto Edwaldo Sérgio destaca o valor do aprendizado mútuo na experiência. (Foto: Maria Eduarda Moura – Museu de Território)
O grupo multidisciplinar carrega consigo o fundamento das atividades extensionistas: o aprendizado mútuo. Assim, ganham a Universidade e a sociedade na qual a instituição está inserida. “A gente tá num lugar onde o poder público não deu muita atenção. A gente aprendeu muita coisa com os avós e a mãe da gente. Esse museu veio para guardar isso. A gente vai poder resgatar, em cada ponto da nossa comunidade, o que foi aqui, o que vai crescer, como é hoje. As crianças que eu cuido vão poder saber. Esse museu veio para ajudar a gente, para poder levantar a autoestima da comunidade”, afirma a moradora Eliana das Neves Pereira, conhecida, na comunidade, como Doca.
Outra liderança comunitária, Jade Dias, revela que, no início, chegou a desconfiar da possibilidade de a iniciativa ter êxito. “Até interroguei o Edwaldo (coordenador do projeto de extensão) na época, né? E hoje em dia eu estou aqui, dando o sangue para ajudar o museu, porque eu vi que a proposta era forte, era interessante, era de resgate da história do nosso bairro, da nossa autoestima, das nossas comidas típicas, resgate de nos reconhecermos como comunidade. Aí, eu abracei a causa”.
A avaliação das moradoras é compartilhada pela estudante do 9º período do curso de Cinema e Audiovisual da UFJF, Maria Eduarda Moura, que acrescenta a importância das vivências de campo para a sua formação acadêmica. No Museu de Território, a graduanda é a bolsista responsável pelos registros do projeto.
“Isso acontecer, em Juiz de Fora (MG), vai ser bem importante. As pessoas terem algo desse tipo aqui, para poderem visitar, terem contato, conhecerem mais da história desse bairro e da cidade que moram. Eu conhecia só aquela parte mais baixa do bairro Dom Bosco. Eu não sabia o que era um museu de território. Comecei a ter contato com as pessoas da comunidade, com a história desses pontos que a gente visitou. É uma experiência muito enriquecedora, uma oportunidade de desenvolver a prática da minha formação. Eu gosto bastante do documentário, desse registro. É um contato muito legal que a gente tem aqui, com conteúdos muito legais que a gente consegue criar a partir desses registros”.
As atividades também têm transformado o olhar da futura arquiteta e urbanista, Marina Freitas Lima, estudante do 7º período, na UFJF, porque oportunizam, à jovem, aprendizados sobre como a preservação da memória coletiva e da história são fundamentais para a construção da identidade cultural e do senso de pertencimento de uma comunidade. Além disso, auxiliam na compreensão do passado e do presente, promovem a empatia e fomentam o exercício pleno da cidadania.
“O contato com a comunidade, cara a cara, isso é muito importante. Eu acho que uma das partes principais da Arquitetura é o contato uns com os outros. E tem sido muito enriquecedor pra gente. Para além dos estudos, aprender com todo mundo que está aqui. É uma experiência de vida mesmo e inspiração de como a população é.”

Equipe multidisciplinar do Projeto dedica-se atualmente ao inventário do bairro e à sensibilização da comunidade. (Foto: Maria Eduarda Moura – Museu de Território)
Inventário e sensibilização
Na fase atual, o grupo extensionista multidisciplinar dedica-se ao inventário do bairro, ou seja, à realização de um mapeamento das principais práticas culturais que existem no território do Dom Bosco e são relevantes para a constituição da população. As atividades têm avançado, principalmente, nas áreas conhecidas como Chapadão e Morro dos Cabritos. Nesse processo, tem-se observado menções, sobretudo, à religiosidade, aos recursos naturais, como a água, e aos vínculos comunitários.
“A gente vê esses três eixos muito bem definidos no imaginário social até o momento. O Dom Bosco tem um dos terreiros mais antigos da Zona da Mata, tem uma capela que é dos anos de 1930. Tem os nomes de lugares associados a santos ou a outras figuras religiosas. Além disso, chamou a nossa atenção que a rede de água e de saneamento só chega tardiamente ao bairro e, até então, existiam arranjos comunitários, por meio de poços artesianos e bicas. No Morro dos Cabritos, tem a nascente. Adicionalmente, tem a questão dos vínculos comunitários, das festividades religiosas, tradicionais, de escolas, além de um nível de parentesco muito acentuado entre as pessoas”, explica o professor Edwaldo Júnior.
Concomitante ao inventário, a equipe também desenvolve a sensibilização da comunidade e, nesse sentido, realiza visitas técnicas periódicas aos museus dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu), em Belo Horizonte (MG), e das Remoções, no Rio de Janeiro (RJ). “Estamos fazendo a sensibilização de alguns atores-chave, algumas referências e líderes comunitários para a ideia do museu de território. E, nesse processo de sensibilização, tem uma metodologia muito interessante que nós usamos, que é convidar essas referências comunitárias a ver outros museus de território in loco, para que possam, a partir de uma dinâmica de maior concretude, entender o porquê da proposta aqui, no Dom Bosco”, acrescenta..
Ainda conforme o docente, a intenção é que todo o processo de criação e organização do Museu de Território Dom Bosco seja realizado de forma conjunta com a comunidade, a qual será a principal gestora da iniciativa. “Os moradores vão assumir ainda mais o protagonismo. E a gente vai ficar ali, sempre com um braço forte, presente, mas a gente imagina que eles que vão assumir esse processo de forma efetiva, e que pode ser por fases. Você pode ter a inauguração dos primeiros percursos, do marco simbólico, mas você pode ter outras frentes que vão se consolidar depois no plano museológico. Acho que a Universidade tem um papel para contribuir, nos move muito o entendimento da capacidade da extensão universitária transformar as realidades, para atacar essa urgência para o trabalho, para a renda, por reconhecimento e por valorização”, conclui.
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