
Iluska Coutinho é jornalista, docente da Faculdade de Comunicação e coordena o grupo de pesquisa Núcleo de Jornalismo e Audiovisual (NJA) (Imagem: programa IdPesquisa)
Nos últimos anos, a forma de consumir e produzir informação tem passado por profundas transformações. E o telejornalismo não fica de fora dessa. Muito mais do que um transmissor de notícias, a televisão passou a construir narrativas que buscam cada vez mais envolver o público, dialogar com novas plataformas e enfrentar desafios, como a desinformação. O assunto faz parte da pesquisa da professora Iluska Coutinho, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e é abordado no 26º episódio do IdPesquisa.
Recentemente, a pesquisadora foi eleita presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), uma das principais entidades científicas da área da Comunicação no Brasil.
Conheça o trabalho da professora e assista ao programa que já está disponível no YouTube e Spotify.
Da objetividade à narrativa
Para a pesquisadora, a diferença entre o jornalismo impresso e o televisivo está além do formato. Segundo ela, enquanto o primeiro tradicionalmente se apoia na objetividade e na estrutura do lide (do inglês lead), que responde às principais perguntas no início do texto, o telejornalismo aposta fortemente na construção de histórias.
“No jornalismo impresso e também no radiojornalismo, a principal preocupação é dar notícia. Só que no telejornalismo, a gente conta uma história trazendo o telespectador para dentro do assunto”, esclarece Iluska.
A pesquisadora destaca que o telejornalismo incorpora elementos da dramaturgia para tornar a notícia mais acessível e envolvente. Nesse contexto, personagens, emoções e situações concretas ganham protagonismo. Esse modelo permite maior identificação do público com os temas abordados, mas também exige uma construção mais cuidadosa da narrativa, que começa ainda na definição das pautas e na escolha das fontes.
Mudanças nos formatos e no papel do público
O formato tradicional da reportagem vem mudando a partir dos avanços das tecnologias digitais e das redes sociais. As matérias fechadas, também conhecidas como VTs, perderam espaço para as entradas ao vivo e formatos mais dinâmicos.
Tal transformação vem acompanhada do comportamento do público, que deixou de ser apenas um mero espectador e passou a interagir diretamente com os conteúdos veiculados. Para a pesquisadora, durante muito tempo uma boa reportagem era aquela considerada “redonda”, com início, meio e fim bem definidos.
“A sociedade está habituada a interpelar o telejornal. Ele não é mais assistido de maneira estática pelas pessoas. Ele é interpelado pelo celular, pelas redes sociais digitais. Então o público sente a necessidade de entrar em contato com a emissora. Hoje a matéria precisa de aresta e o ao vivo permite isso.”
Nesse contexto, as “arestas” mencionadas por Iluska representam justamente a possibilidade de continuidade da conversa para além da reportagem, algo potencializado pelas transmissões ao vivo e pelas interações nas plataformas digitais. Ou seja, formatos mais abertos e interativos criam a oportunidade para que a audiência participe do debate, questione informações, compartilhe experiências e estabeleça diálogo com os conteúdos apresentados.
Núcleo de Jornalismo e Audiovisual

O Núcleo é composto por docentes, alunos e pesquisadores da área de comunicação, funcionando tanto como um grupo de pesquisa científica quanto como um espaço para investigação, estudo, experimentação e análise de materiais audiovisuais e outras formas de narrativa jornalística (Foto: Jorge Felz)
Iluska é coordenadora do Núcleo de Jornalismo e Audiovisual (NJA), grupo de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Comunicação (Ppgcom) da UFJF dedicado à investigação e à produção audiovisual.
Desde 2010, uma das principais áreas de estudo e atuação do NJA tem sido o jornalismo televisivo e a comunicação pública. Integrando ensino, pesquisa e extensão, o grupo busca compreender as transformações do jornalismo contemporâneo. A partir das pesquisas realizadas pelo núcleo, foi desenvolvida uma das principais contribuições metodológicas para o grupo: a Análise da Materialidade Audiovisual, também conhecida como AMA.
A AMA busca estudar produtos audiovisuais considerando a experiência integrada entre imagem, som, narrativa e contexto de circulação, sem fragmentar esses elementos. De acordo com Iluska, a proposta nasceu da necessidade de criar ferramentas mais adequadas à análise de conteúdos audiovisuais.
“A AMA é o método que busca estudar o objeto audiovisual sem fazer decomposições. A gente começou a perceber que, para estudar telejornalismo, precisava de métodos mais adequados ao objeto audiovisual”, explica a professora.
Inicialmente voltada para pesquisas sobre telejornalismo, a metodologia passou a ser aplicada em estudos sobre telenovelas, programas de entretenimento, campanhas digitais, conteúdos produzidos para redes sociais e outras narrativas audiovisuais.
O núcleo também se destaca no enfrentamento à desinformação, com projetos que dialogam diretamente com a sociedade, especialmente em escolas e com a população idosa. O NJA integra redes nacionais de pesquisa e participa de ações colaborativas que buscam fortalecer a qualidade da informação e o direito à comunicação no Brasil.
Formação de pesquisadores e impacto social
Além das pesquisas coordenadas por Iluska Coutinho, o NJA também atua na formação de novos pesquisadores. Atualmente, estudantes de graduação, mestrado e doutorado investigam diferentes fenômenos ligados ao jornalismo, ao audiovisual e à circulação de informações na sociedade contemporânea.

Mariana Almeida investiga produções relacionadas ao caso Suzane von Richthofen e observa como diferentes escolhas narrativas influenciam o público (Foto: arquivo pessoal)
Um desses integrantes é a mestranda Mariana Almeida, que dedica sua pesquisa a compreender como notícias e produções em estilo true crime constroem percepções sociais sobre crime, justiça e os personagens envolvidos. Para ela, a experiência no Núcleo tem sido fundamental para a sua formação, principalmente por possibilitar o desenvolvimento da pesquisa em um ambiente coletivo e interdisciplinar.
Mariana investiga produções relacionadas ao caso Suzane von Richthofen e observa como diferentes escolhas narrativas, como enquadramento, linguagem e construção de personagens influenciam a forma como o público percebe esses acontecimentos. Isso, de acordo com ela, desloca a análise para além do conteúdo em si e permite refletir sobre os efeitos dessas representações, especialmente quando envolvem violência e forte apelo midiático.
Ela conta que as pesquisas desenvolvidas no NJA dialogam com a sociedade justamente por se debruçarem sobre fenômenos que fazem parte do cotidiano das pessoas, como o consumo de informação, o telejornalismo, as redes sociais e as narrativas audiovisuais. Ao investigar esses temas, o Núcleo produz reflexões que ajudam a compreender como a mídia participa da construção de sentidos na vida social.
“Ao analisar desde a cobertura de temas sensíveis até as transformações nas linguagens audiovisuais, o NJA contribui para ampliar o debate público sobre o papel da mídia na sociedade contemporânea. Isso é especialmente importante em um contexto marcado por disputas de narrativa, desinformação e mudanças constantes nas formas de produção e consumo de conteúdo.”, esclarece Mariana.

Jean de Almeida destaca as transformações do telejornalismo tradicional para formatos cada vez mais digitais, dinâmicos e multiplataforma (Foto: arquivo pessoal)
O estudante de jornalismo Jean Paulo de Almeida integra o NJA desde 2023 e participa de pesquisas sobre desinformação, desertos de notícias, jornalismo amador e segurança digital. Ele conta que o NJA deu a oportunidade de entrar em contato com diferentes campos de estudo que atravessam o jornalismo contemporâneo, como os debates sobre direitos humanos.
Além disso, ele conta que mesmo não sendo o foco direto da sua pesquisa, tais reflexões ampliam seu repertório crítico e contribuem para uma compreensão mais ética e socialmente responsável da prática jornalística.
“Dentro do núcleo, temos percebido essas transformações sobretudo a partir da consolidação de uma transição do telejornalismo tradicional para formatos cada vez mais digitais, dinâmicos e multiplataforma. As discussões propostas pela professora Iluska evidenciam que o audiovisual deixa de estar restrito à lógica linear da televisão e passa a dialogar com as linguagens das redes sociais, exigindo adaptações tanto na forma quanto no conteúdo”, explica o estudante.
Já para Gabriel Bhering, a experiência no NJA foi decisiva para sua formação acadêmica e profissional. “Realizar uma iniciação científica não se resume a fazer uma pesquisa que finaliza no grupo. A professora Iluska sempre incentivou a participação em congressos e a divulgação dos resultados das pesquisas. Esse processo ampliou minha bagagem teórica e foi fundamental para que eu seguisse na pós-graduação”, afirma.

Gabriel Bhering, durante a graduação, participou de projetos voltados ao combate à desinformação e para o estudo de estratégias de checagem de fatos (Foto: arquivo pessoal)
Atualmente, no doutorado, Gabriel investiga os processos de adaptação de livros-reportagem para séries audiovisuais. O objetivo é compreender como histórias originalmente construídas a partir da apuração jornalística são transformadas em produtos de entretenimento e quais implicações éticas esse processo pode gerar.
“Pensar esse fenômeno é uma forma de evitar que histórias de vítimas sejam apagadas em prol de narrativas que privilegiam criminosos ou espetacularizam acontecimentos traumáticos. As representações audiovisuais impactam diretamente a forma como construímos imaginários sobre a realidade”, destaca.
Além de assistir ao IdPesquisa pelo canal do YouTube, você pode ouvir o episódio pelo Spotify.
