Percurso integra a programação do Dia do Meio Ambiente da UFJF e será realizado no dia 10 de junho, das 9h às 11h30 (Foto: Museu de Território Dom Bosco/JF) 

As ruas, escadões, nascentes e histórias do bairro Dom Bosco serão o cenário do primeiro Walking Tour promovido pelo projeto de extensão Museu de Território Dom Bosco/JF. A atividade convida a comunidade acadêmica e o público externo a percorrer o território a partir do olhar de seus moradores, explorando aspectos ligados à memória, ao patrimônio cultural, às transformações urbanas e às desigualdades socioambientais que marcam a história da região.

A iniciativa é desenvolvida por pesquisadores e extensionistas do Grupo de Educação Tutorial (GET) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (Maea), o Departamento de Turismo, a Pró-Reitoria de Extensão (Proex) e moradores do Dom Bosco.

O percurso integra a programação do Dia do Meio Ambiente da UFJF e será realizado no dia 10 de junho, das 9h às 11h30. O ponto de encontro será em frente às instalações do Corpo de Bombeiros, no campus da Universidade. As vagas são limitadas e devem ser realizadas pelo formulário eletrônico até as 17h do dia 9 de junho.

Ao longo do trajeto, os participantes conhecerão áreas de risco geológico da região conhecida como Chapadão, diferentes padrões de ocupação e moradia, escadões e soluções populares de mobilidade, além de poços, nascentes, bicas e locais de memória e afeto indicados pela própria comunidade. O roteiro também permite compreender as relações do Dom Bosco com bairros vizinhos, como Cascatinha, São Mateus e Estrela Sul.

Projeto destaca locais de relevância histórica e manifestações culturais das regiões do Chapadão e do Morro dos Cabritos (Foto: Museu de Território Dom Bosco/JF)

Segundo a professora e tutora do GET, Raquel Von Randow, o percurso foi planejado para que os participantes possam compreender o território a partir de elementos que ajudam a contar sua história e revelar suas dinâmicas sociais e ambientais. 

A proposta também reforça a troca de saberes entre universidade e moradores. Para a docente, mais do que apresentar informações sobre o bairro, o Walking Tour busca criar um espaço de escuta e diálogo, em que o conhecimento acadêmico e as experiências da população local se complementam. “O Walking Tour é uma oportunidade de os estudantes verem na prática o que estudamos nos livros: como a segregação socioespacial se materializa no território, como o racismo ambiental produz vítimas, e como as comunidades resistem”, comenta. 

Racismo Ambiental
Raquel explica que o racismo ambiental se manifesta de forma concreta nos espaços urbanos brasileiros e que o bairro Dom Bosco é um exemplo dessa realidade. Para ela, trata-se da exposição desproporcional de populações negras e de baixa renda a riscos ambientais.

Professora e tutora do GET, Raquel Von Randow, ressalta que tour busca criar um espaço de escuta e diálogo entre comunidade e universidade (Foto: UFJF)

“Isso acontece porque, ao longo da história, a população negra foi sistematicamente empurrada para os territórios que a capital não queria. Depois da Abolição, sem acesso à terra, ao trabalho formal, à cidadania plena, os negros libertos foram confinados aos morros íngremes, às várzeas alagadiças, aos terrenos instáveis.”

Ainda de acordo com ela, em Juiz de Fora, isso é muito claro. As áreas de risco mapeadas pelo Serviço Geológico do Brasil estão todas nas bordas da cidade, nas encostas, nas periferias. O centro histórico, seguro e bem servido de infraestrutura, é o território das elites. “Quem mora nas áreas de risco? Dados demográficos mostram: população majoritariamente negra e famílias chefiadas por mulheres.”

Quanto ao bairro Dom Bosco, especialmente a região do Chapadão, nas palavras da professora, trata-se de uma área de alto risco geológico, ocupada por uma população negra e de baixa renda, que há décadas convive com a precariedade e com a ameaça constante das chuvas. “O racismo ambiental é, portanto, a materialização no território de uma hierarquia racial que o Brasil nunca enfrentou de fato. E a catástrofe de fevereiro de 2026 foi apenas a expressão mais violenta dessa realidade”, pontua. 

Projeto de implementação de um Museu de Território no bairro Dom Bosco teve início em 2024 (Foto: Museu de Território Dom Bosco/JF)

O Projeto
Para o coordenador do projeto e professor do curso de Turismo, Edwaldo Sérgio, a atividade representa também um importante passo na construção do futuro Museu de Território Dom Bosco/JF, que será construído no próprio bairro. 

Atualmente, o projeto avança na etapa de inventário do patrimônio cultural do bairro, trabalho desenvolvido por estudantes do curso de Turismo, História e Arquitetura da UFJF. Até o momento, locais de relevância histórica e manifestações culturais das regiões do Chapadão e do Morro dos Cabritos, ambos do bairro Dom Bosco, já foram mapeados pela equipe.

Nos próximos meses, os pesquisadores pretendem ampliar o trabalho para outras áreas do bairro, como a região do 511 e a Grota. A proposta é realizar o inventário em conjunto com os moradores, identificando e registrando manifestações culturais, espaços de memória, tradições e outras referências importantes para a história e a identidade da comunidade.

O projeto de implementação de um Museu de Território no bairro Dom Bosco teve início em 2024, a partir de diálogos entre pesquisadores do Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (MAEA) da UFJF e professores do curso de Turismo que atuam nas áreas de Patrimônio Cultural, Ambiente e Sociedade.

Projeto avança na etapa de inventário do patrimônio cultural do bairro, trabalho desenvolvido por estudantes do curso de Turismo, História e Arquitetura da UFJF (Foto: Museu de Território Dom Bosco/JF)

Segundo Edwaldo, a iniciativa foi impulsionada por experiências anteriores desenvolvidas em museus de território e comunitários no Rio de Janeiro, realizadas durante atividades de campo da graduação. A partir dessas vivências, a equipe passou a enxergar no bairro Dom Bosco características que o tornavam um espaço fértil para a implantação de um museu de território.

“Entre os aspectos observados estão a forte presença da população negra na formação histórica do bairro, as relações de sociabilidade marcadas pela busca por água e pela espiritualidade, além de processos de violência simbólica e urbana que impactam a comunidade. Esses elementos permitiram identificar o potencial do território para promover reflexões sobre memória, identidade, pertencimento e direito à cidade’, explica.

O projeto ganhou mais força quando os pesquisadores descobriram que o GET da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo desenvolvia discussões semelhantes. A aproximação entre as equipes resultou em uma parceria que fortaleceu a proposta.

A consolidação da iniciativa também foi marcada por visitas técnicas realizadas por integrantes do projeto e moradores do Dom Bosco a experiências já consolidadas, como o Museu das Remoções e o Museu da Maré, no Rio de Janeiro, e o Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu), em Belo Horizonte. De acordo com Sérgio, as semelhanças entre essas iniciativas e a realidade do Dom Bosco reforçaram a viabilidade e a importância da criação de um museu de território no bairro.

Outras informações: Projeto de Extensão do Museu de Território Dom Bosco/JF

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Museu de Arqueologia e Etnologia Americana