
Exposição propõe uma reflexão visual sobre as Pombagiras como símbolos de força feminina, aproximando-as das experiências de mulheres na sociedade brasileira contemporânea
De longe, já se pode escutar o som dos atabaques. As moças bonitas vêm girando da calunga para trabalhar. Elas sobem as escadarias, seus perfumes já tomam conta do espaço, e, assim, fazem com que ancestralidade e arte se encontrem mais uma vez na Galeria de Arte do Forum da Cultura da UFJF. Na próxima terça-feira, dia 26 de maio, às 18h30, esse encontro poderá ser admirado na abertura da mostra “Marias”, da artista visual e pesquisadora Laura Souza.
A nova exposição propõe uma reflexão visual sobre as Pombagiras como símbolos de força feminina, deslocando os estigmas historicamente associados a essas figuras e aproximando-as das experiências de mulheres na sociedade brasileira contemporânea. No evento, gratuito e aberto à população em geral, estarão presentes a artista e os produtores culturais Mariana Andrade e Rodrigo Dias, que compartilharão suas experiências sobre o fazer artístico afro e os caminhos que a arte afro têm ocupado e conquistado na sociedade. O Grupo MAKAMBA, de estudo e pesquisa em Jongo, também estará presente na ocasião, realizando uma apresentação.
A aquarela foi a técnica escolhida por Laura Souza para dar materialidade a entidades que, apesar de amplamente lembradas e citadas por muitos brasileiros, ainda são grandes desconhecidas. Além disso, objetos escultóricos também compõem a mostra.
“A mostra homenageia diferentes manifestações das Pombagiras presentes nas tradições afro-brasileiras, como Maria Padilha, Maria Mulambo, Maria Navalha, Maria Quitéria, entre outras Marias”, explica a artista Laura Souza. “Frequentemente associadas à marginalidade, ao desejo e à transgressão feminina, essas entidades carregam estigmas que atravessam também a experiência de muitas mulheres no cotidiano. A proposta da mostra é deslocar tais leituras, apresentando essas figuras como linguagens de poder, proteção e agência simbólica”, acrescenta.
Ao articular espiritualidade, memória e crítica social, a mostra busca tensionar os modos como o feminino dissidente foi e ainda é representado, propondo um olhar que enfatiza autonomia, resistência e potência simbólica.
Os visitantes terão a oportunidade de fazer uma verdadeira imersão em um universo de grande riqueza cultural e conexão com o transcendental, no qual raízes brasileiras e africanas se entrelaçam. Esse entrelaçar também pode ser encontrado em outro aspecto da mostra, visto que as aquarelas incorporam elementos tridimensionais que ampliam suas narrativas simbólicas. Rosas brancas manchadas de preto evocam a travessia espiritual e a dimensão das almas associadas a Maria Padilha; fitas de cetim em nós remetem à atuação de Maria Mulambo na desarticulação de amarras simbólicas e afetivas; fios e farrapos em relevo marcam a presença de Maria Farrapo, que segura um espelho como convite ao reconhecimento — sugerindo que cada visitante também é atravessado por estigmas e potências semelhantes. Esses componentes expandem a pintura para um campo instalativo, aproximando imagem, objeto e materialidade ritual.
“Marias” também diz muito sobre a história da artista, sua realidade na sociedade, sua trajetória na arte e suas conexões com o espiritual. “Eu cresci na periferia, as religiões afro também são marginalizadas, e eu sempre gostei e quis fazer arte… Só que eu não enxergava muito como fazer isso, não encontrava um caminho, então acredito que foram essas minhas realidades e vontades que se ligaram umas às outras”, relata Laura. “E, dessa forma, ao mesmo tempo que fui me aproximando dessa espiritualidade afro-brasileira, fui me aproximando do meu eu artista, criando mais coragem para começar e, inclusive, também adentrar na trajetória acadêmica”, reforça.

Busto acompanhado por palavras escritas em vermelho evocam estigmas historicamente atribuídos ao universo feminino dissidente
Um dos destaques da mostra é um busto acompanhado por palavras escritas em vermelho que evocam estigmas historicamente atribuídos ao feminino dissidente, como perigosa, mal, demoníaca, imoral, vulgar, profana e impura. Esse busto escultórico central, intitulado “Palavras-estigma”, foi concebido como presença simbólica das Marias no espaço expositivo. Uma peça que funciona como eixo da exposição, instaurando um ponto de convergência entre as diferentes imagens apresentadas. Cada imagem estabelece relação simbólica com uma entidade específica, criando uma galeria de presenças que tensiona os limites entre condenação social e potência espiritual.
Chama a atenção também a obra “Poeira da estrada”, que apresenta um sapato preto com aplicação de poeira simbólica proveniente do busto escultórico central, evocando trajetórias marcadas por deslocamentos, sobrevivências e julgamentos sociais. Já a obra Corpo sem dignidade é composta por palavras escritas manualmente que formam o contorno lateral de um busto, reunindo termos como “perigosa”, “demoníaca”, “poder”, “desejo”, “livre” e “rua”, evidenciando a sobreposição entre condenação social e afirmação de potência que atravessa os corpos femininos dissidentes.

Laura Souza é artista visual, mestranda em Ciência da Religião, especialista em Moda, Arte e Cultura e autora do livro “Lésbica Tardia”
Ao aproximar arte contemporânea, cultura popular e espiritualidade afro-brasileira, a exposição busca ampliar o repertório visual do público e promover um encontro sensível com narrativas que atravessam o cotidiano urbano e as experiências do feminino no Brasil. A mostra, por meio da linguagem artística, busca discutir as formas de estigmatização e resistência que marcam corpos e subjetividades, especialmente em um contexto social ainda atravessado por preconceitos de gênero, raça e religiosidade.
Laura Souza foi uma das artistas selecionadas pelo Edital de Ocupação da Galeria de Arte do Forum 2026, cujo resultado foi divulgado no dia 16 de março.
A mostra “Marias” segue em cartaz até o dia 12 de junho, com visitações gratuitas de segunda a sexta, das 13h às 16h. A entrada é gratuita.
Mais sobre a artista
Laura Souza é artista visual, mestranda em Ciência da Religião, especialista em Moda, Arte e Cultura e autora do livro “Lésbica Tardia”. Formada em Design de Moda, sua trajetória entrelaça criação e pesquisa a partir das relações entre corpo, estética e espiritualidade, com foco nas práticas afro-brasileiras e nas múltiplas expressões do feminino.
Sua escrita e produção artística investigam o sensorial como linguagem, em que o perfume, o gesto e a imagem se tornam formas de poder, identidade e presença. Em “Lésbica Tardia”, atravessa experiências de descoberta, desejo e nomeação, ampliando debates sobre identidade e vivências lésbicas.
Entre o rigor acadêmico e a sensibilidade criativa, Laura constrói narrativas que revelam camadas invisíveis do cotidiano, tensionando fronteiras entre arte, moda e religiosidade e propondo novas formas de existir e se reconhecer no mundo.
Mais sobre as pombagiras
As Pombagiras são entidades cultuadas em religiões de matriz africana como a Umbanda e o Candomblé, consideradas a contraparte feminina de Exu, o mensageiro entre os humanos e os Orixás. As Pombagiras costumam ser associadas à força feminina, sensualidade, liberdade, proteção, poder pessoal, justiça e relações afetivas, sendo grandes guardiãs dos caminhos e especialistas em assuntos ligados a amor, autoestima, relacionamentos e quebra de demandas espirituais.
O termo Pombagira deriva de pamboanidila ou mpambu nzila, uma divindade banto (de Angola e Congo) que significa “encruzilhada” ou “os caminhos que se cruzam”.
Na formação das religiões afro-brasileiras, a figura ganhou contornos de espíritos femininos de mulheres que viveram histórias marcantes, que superaram grandes provações. Uma visão muito comum em muitos terreiros (espaços sagrados onde acontecem os rituais das religiões afro-brasileiras) é que as pombagiras foram, em vida, por exemplo, mulheres marginalizadas, prostitutas, ciganas, boêmias, vítimas de violência e/ou mulheres perseguidas socialmente.
As Pombagiras enfrentam ainda muitos estereótipos e preconceito popular, justamente pelo desconhecimento e demonização das religiões afro-brasileiras, e também pelo modo como a sociedade brasileira tratou mulheres consideradas “fora do padrão” ao longo dos anos.
Galeria de Arte
O espaço, instalado em um local privilegiado no segundo pavimento do Forum da Cultura, abriga produção eclética, com exposições de artes plásticas, documentais e pedagógicas, que já chegaram a ter mais de mil visitantes por mostra. Criada em 1981, no reitorado do professor Márcio Leite Vaz, a galeria recebe importantes nomes da pintura de Minas Gerais e da cidade, além de jovens artistas e coletivos. Em janeiro de 2024, o espaço passou por reforma, substituindo as antigas placas de madeira por novas, garantindo assim um espaço renovado, com estruturas reforçadas para as mostras a serem expostas. O sistema de iluminação também foi renovado, possibilitando mais destaque para as obras em exibição.
Forum da Cultura
Instalado em um casarão centenário, na rua Santo Antônio, 1112, Centro, o Forum da Cultura é o espaço cultural mais antigo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em atividade há mais de cinco décadas, leva à comunidade diversos segmentos de manifestações artísticas, abrindo-se a artistas iniciantes e consagrados para divulgarem seus trabalhos.
Endereço e outras informações
Forum da Cultura
Rua Santo Antônio, 1112 – Centro – Juiz de Fora
www.ufjf.edu.br/forumdacultura
E-mail: forumdacultura@ufjf.br
Instagram: @forumdaculturaufjf
Telefone: (32) 2102-6306
