
‘Tríptico’, origem Itália. (Acervo: Forum da Cultura)
Maria, um nome de origem hebraica (Miryam) associado a significados como “senhora soberana”, “vidente”, “a pura” ou “amada”. Historicamente, ficou reconhecido como o nome da mãe de Jesus, popularizado pelo cristianismo. Representações dessa figura feminina icônica, fortemente ligada à fé de milhares de pessoas, estarão em exibição em ‘Sob o manto azul’, nova exposição do Museu de Cultura Popular, instalado no Forum da Cultura da UFJF. A mostra fica em exibição durante todo o mês de maio com visitações de segunda a sexta, das 13h às 16h. A entrada é gratuita.
Em um mês conhecido como mês ‘mariano’, justamente para homenagear Maria, a exposição traz mais de 20 obras com diferentes invocações da mãe de Jesus Cristo, inspiradas por relatos de suas aparições, milagres e por outras ocasiões especiais ligadas a ela. O público terá a oportunidade de mergulhar em um espaço em que devoção e arte se misturam, demonstrando as fortes ligações religiosas com a cultura popular.
Estarão em exibição, por exemplo, efígies de Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora do Bom Parto, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Guadalupe, entre outras.
Todas as representações em exibição na mostra dizem sobre a mesma figura, a mãe de Jesus. Os diferentes nomes, muitos deles com a presença dos termos ‘Nossa Senhora’, são títulos devocionais que se referem a aparições, dogmas ou locais específicos, mas todos apontam para a mesma figura bíblica. Vale destacar ainda que as diferenças de fisionomia e vestimentas, como, por exemplo, os traços indígenas em Guadalupe, servem para aproximar Maria da cultura e população local. Logo, tais traços podem ser contemplados nas criações dos artistas populares.
Criadas a partir de materiais como porcelana, gesso, madeira e resina, cada uma das ‘Marias’ em exibição apresenta elementos que remetem à pureza, humildade e coragem, características que ao longo da história do Cristianismo foram atreladas à persona materna da mulher que deu a vida a Jesus. As peças são oriundas de cidades como Mariana (MG), Belo Horizonte (MG), São Gonçalo (RJ), Rio de Janeiro (RJ) e até mesmo de outros países como Itália e Espanha.

Nossa Senhora da Palma, em gesso policromado. (Acervo: Forum da Cultura)
O manto azul, escolhido como termo norteador da curadoria, está presente na maioria das obras expostas. Ele simboliza a divindade, o céu, a realeza e a proteção maternal. Na iconografia cristã, o azul representa a transcendência e a pureza, frequentemente retratando Maria como a humanidade envolta pela graça divina. O manto é como um abraço que envolve cada uma das pessoas, reforçando os aspectos de cuidado e refúgio espiritual vinculado à imagem.
Entre os destaques de ‘Sob o manto azul’, está a representação de Nossa Senhora da Palma em cerâmica policromada. As tonalidades mais terrosas simbolizam a naturalidade do fazer artesanal; o entalhar da peça também reforça o toque humano. Nas mãos da figura sacra estão o menino Jesus e uma palma, que representa a vitória de Maria sobre o pecado e a morte. Nossa Senhora da Palma é uma invocação de Maria, padroeira de Baturité (CE), cuja devoção está ligada a uma imagem do século XVIII trazida por indígenas. A Catedral de Baturité (antiga Matriz, 1758-1784) é o centro de sua veneração.
Também chama atenção a figura de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, representada em um tríptico em madeira policromada. A peça, oriunda da Itália, é composta por três painéis que se conectam visual e conceitualmente, formando um único conjunto harmônico, geralmente com uma peça central maior ladeada por duas menores. A obra é um ícone bizantino e representa Maria segurando Jesus, que olha para os anjos segurando os instrumentos da Paixão, mostrando a intercessão materna. Perpétuo Socorro refere-se ao auxílio contínuo e eterno que Maria oferece aos seus filhos em aflições.
Para o conservador e restaurador de bens culturais do Forum da Cultura, Victor Dousseau, a mostra valoriza a arte sacra e possibilita compreender como ela integra a cultura popular do país. “É impossível dissociar arte e religiosidade no Brasil. A devoção das pessoas transborda de tal forma que os artesãos e artesãs conseguem trazer à materialidade as emoções que sentem”, reflete. “O caso de Maria, mãe de Jesus, é emblemático. Inicialmente, por ser a figura conhecida como padroeira do país, de acordo com a tradição católica, e consequentemente, forte ligação com a população. Dessa forma, possibilitar que o público venha até o museu e a veja representada em forma de arte é muito significativo e importante para nosso espaço”, conclui.
Maria ao longo da história
As catacumbas de Roma, utilizadas para sepultamentos, são os locais onde foram identificadas as primeiras manifestações de veneração à Virgem Maria. Em pinturas das paredes destes locais estão documentadas cenas de Maria com Jesus. As catacumbas romanas de Priscila, mais especificamente, contêm as mais antigas pinturas marianas conhecidas, datadas do meio do segundo século, depois de Cristo. Em um dos afrescos, Maria é representada com o menino Jesus em seu colo.
Saltando no tempo, chegamos à Europa do século XII, em que surge a tradição de um mês dedicado exclusivamente à Maria, ligando a figura da mesma ao início da primavera naquele continente, período das rosas e todas as demais flores.
Já no Brasil, a devoção Mariana teve origem no período da colonização, com a evangelização promovida pelos padres Jesuítas, que, aos poucos, ganhou força e alcançou pontos diversos do país.
Museu de Cultura Popular – UFJF
Com um rico acervo de mais de 3 mil peças, o Museu de Cultura Popular é um importante espaço de preservação, resgate e valorização da arte oriunda de expressões e tradições populares.
Entre estatuárias, artefatos indígenas, brinquedos antigos, peças de crenças religiosas e outros diversos itens, das mais distintas origens, o visitante tem a oportunidade de realizar uma verdadeira viagem a outros tempos e locais, muitas vezes desconhecidos. O museu abriga objetos da cultura nacional e também de estrangeiras.
As peças, de natureza singular, aguçam a curiosidade e atuam como pontos de contato entre pessoas e culturas diferentes, propiciando, dessa forma, um intercâmbio extremamente importante para a sociedade.
O Museu, criado em 12 de março de 1965 – data que marcou o centenário do folclorista Lindolfo Gomes –, foi transferido para o espaço do Forum da Cultura em 1973, sendo doado à UFJF em 30 de setembro de 1987. Sua origem está no trabalho do Prof. Wilson de Lima Bastos, que criou o então chamado “Museu do Folclore”, mais tarde renomeado como “Museu de Cultura Popular”.
