Análise das amostras na Faculdade de Farmácia (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)

Diante do aumento dos casos de hepatite A em Juiz de Fora, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) passou a realizar, de forma inédita, exames laboratoriais para detecção do vírus. A medida fortalece a resposta da rede pública de saúde e reduz o tempo de espera pelos resultados, etapa essencial para o controle da doença.

A iniciativa é conduzida pelo Centro Colaborador da Faculdade de Farmácia, que já integra a rede estadual de laboratórios de saúde pública em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. A UFJF já atua na realização de exames para doenças como tuberculose, HIV, hepatites B e C, vírus respiratórios e arboviroses — como dengue, zika e chikungunya —, mas a hepatite A ainda não fazia parte desse escopo.

Para o diretor da Faculdade de Farmácia, Marcelo Silvério, a parceria com a Universidade permite resultados mais rápidos diante do aumento de casos no município (Foto: Alexandre Dornelas)

Até então, as amostras coletadas em Juiz de Fora pela rede pública de saúde eram encaminhadas para análise na Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte. Com o aumento da demanda em todo o estado, o tempo de liberação dos resultados passou a comprometer a resposta rápida necessária para o manejo da doença.

Diante desse cenário, a Prefeitura de Juiz de Fora acionou a Universidade, que, em articulação com a Secretaria Estadual de Saúde, também passa a receber e analisar as amostras coletadas. “Os exames de hepatite A não estavam no escopo do nosso convênio com o Estado. Com o aumento dos casos em Juiz de Fora e da demanda na Funed, o tempo de resposta deixou de atender a necessidade do município, que precisa de resultados mais rápidos para o manejo adequado da doença”, explica o professor Marcelo Silvério, diretor da Faculdade de Farmácia.

Parceria que viabiliza o diagnóstico
Atualmente, a UFJF processa entre 20 e 25 amostras por semana. Para viabilizar a nova frente de atuação, a Universidade firmou parceria com o Hospital Universitário da UFJF, gerido pela HU Brasil, antes Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), responsável por apoiar a etapa final da análise laboratorial.

O fluxo começa com o recebimento das amostras na Faculdade de Farmácia, onde são triadas e cadastradas. Em seguida, o material é encaminhado ao hospital, onde é processado em equipamento específico. Após a análise, os resultados retornam à Faculdade de Farmácia para conferência e liberação.

Atualmente, a UFJF, em parceria com o HU, processa entre 20 e 25 amostras por semana (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)

Segundo o superintendente do HU, José Otávio Corrêa, a parceria entre a Universidade e o hospital permite que os exames sejam realizados na própria cidade, com mais agilidade. “Isso impacta diretamente na qualidade do atendimento, possibilitando um diagnóstico mais rápido e um tratamento mais assertivo”, destaca.

Superintendente do HU-UFJF, José Otávio Corrêa, reforça a agilidade das análises e a qualidade do atendimento (Foto: Géssica Leine)

A análise é realizada na Unidade de Análises Clínicas e Anatomia Patológica. Para a chefe da unidade, Clarissa Cunha, “o hospital dispõe de estrutura técnica e equipe qualificada para essa atividade, sendo responsável pela execução dos exames, enquanto os reagentes são viabilizados pela Faculdade de Farmácia, no âmbito dessa parceria institucional”, pontua.

Segundo ela, o HU-UFJF contribui com sua capacidade instalada e expertise técnica para ampliar o acesso ao diagnóstico, em uma atuação integrada entre instituições públicas, em resposta a uma demanda relevante de saúde pública.

Clarissa Cunha destaca a estrutura técnica e a equipe do hospital para a realização das análises (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)

Doença exige atenção
A hepatite A é uma infecção viral que afeta o fígado e tem transmissão principalmente por via fecal-oral, associada ao consumo de água ou alimentos contaminados e a condições inadequadas de higiene.

De acordo com a pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da UFJF, Tarsila Ribeiro, o cenário atual do município exige atenção da população. “Juiz de Fora vive um aumento expressivo de casos de hepatite A, o que torna fundamental reforçar as medidas de prevenção”, alerta.

Segundo Tarsila, os sintomas mais comuns incluem febre, cansaço, náuseas, dor abdominal e icterícia – quando a pele e os olhos ficam amarelados. Em crianças, a doença pode não apresentar sinais, o que contribui para a disseminação. Apesar de geralmente não evoluir para formas crônicas, a pesquisadora destaca que a doença pode causar complicações. “A hepatite A é autolimitada, mas, em alguns casos, pode evoluir para quadros graves, como falência hepática”, explica.

Análise realizada na Unidade de Análises Clínicas e Anatomia Patológica, no hospital universitário (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)

A principal forma de prevenção é a vacinação, disponível no calendário nacional desde 2014. No entanto, Tarsila comenta que grande parte da população adulta não foi imunizada, o que aumenta a vulnerabilidade em cenários de surto.

Tarsila Ribeiro destaca os cuidados para evitar a hepatite A (Foto: UFJF)

Além da vacina, destaca-se medidas simples que são essenciais para conter a transmissão. “Como a doença é transmitida por via fecal-oral, a higienização das mãos é fundamental, especialmente após o uso do banheiro e antes de manipular alimentos”, orienta Tarsila.

Ela também reforça os cuidados com a alimentação. “Frutas, verduras e legumes consumidos crus devem ser higienizados corretamente. É ideal fazer uma solução com água sanitária – uma colher de sopa para 1 litro de água – e deixar frutas, verduras e legumes de molho por 10 a 15 minutos. Depois, é importante lavar e enxaguar bem em água potável”, explica.

Além disso, em casos de contato com pessoas infectadas, a recomendação é procurar uma unidade de saúde. “A avaliação precoce permite adotar medidas de prevenção, como a vacinação, quando indicada”, completa.