Exposição ‘Nossos trançados’ fica até o dia 27 de fevereiro, no Museu de Cultura Popular (Foto: Helena Barreto).

Trançar, verbo que indica entrelaçar fios, fibras ou outros materiais em uma estrutura cruzada, formando uma trama ou trança. Mais do que uma simples atividade, o trançar é considerado um dos primeiros e mais fundamentais saberes humanos, com origens que remontam a milhares de anos atrás. É parte dessa preciosa ancestralidade que o Forum da Cultura traz ao público, por meio da nova exposição ‘Nossos trançados’, em exibição até o dia 27 de fevereiro, no Museu de Cultura Popular.

Reunindo 25 exemplares dessa técnica, a nova exposição propõe uma visão onidirecional que demonstre, de forma prática, que os trançados são elementos presentes na cultura dos mais diferentes povos, o que o firma como um saber comum para toda a humanidade. Será possível conferir de perto, por exemplo, cestas, bolsas, chapéus e abanadores que têm como origem países como Brasil, Portugal, Suriname e Tunísia.

Se surgiram com uma finalidade funcional, seja para separar sementes de impurezas, carregar alimentos, se proteger do sol ou se refrescar com um leve vento, fato é que, com o tempo, tais objetos ganharam novas perspectivas, sendo apreciados como arte, manifestação de saber popular e aspecto cultural identitário de diferentes povos. As peças em exibição carregam elementos visuais peculiares que proporcionam ao visitante a chance de notar as diferenças nos modos de fazer, evidenciado nos variados formatos geométricos, nas diferentes espessuras, por meio dos corantes utilizados para alcançarem determinada tonalidade e as matérias-primas escolhidas para sua confecção.

O trançado indígena brasileiro é um dos destaques da exposição, por meio de objetos como o paneiro, uma espécie de cesto, e uma diversidade de leques. Criados a partir de matérias-primas como fibras vegetais, folhas de palmeiras, cipós e bambu, coletadas nas florestas tropicais, demonstram a destreza manual dos povos originários e uma forte carga simbólica. Séculos se passaram, e, por meio de diferentes períodos da história, este trabalho artesanal indígena popularizou-se por todo o Brasil. Fibras como palha e capim tornaram-se umas das principais escolhas de artesãos para criação de itens como chapéus, abanos e sacolas que, inclusive, também integram a exposição.

Exposição reúne 25 exemplares de trançados (Foto: Helena Barreto).

Também merece atenção os trançados oriundos do continente africano, no caso da exposição, a alcofa tunisiana, uma espécie de berço portátil ou cesto de transporte para recém-nascidos. Com tramas que podem ser complexas e que variam de acordo com a região e o grupo étnico, os trançados do continente mãe carregam histórias e identidades culturais. Eles influenciaram fortemente os trançados produzidos no Brasil, especificamente objetos feitos com bambu. Cortadas em tiras finas, retorcidas e entrelaçadas, essa matéria-prima, sob as destras mãos negras, deu origem a balaios e cestos utilizados, por exemplo, para recolher frutos. Outro material também utilizado eram as fibras das palmeiras que possibilitavam a confecção de redes, esteiras e abanos. Toda esta riqueza foi trazida ao Brasil por meio das pessoas escravizadas vindas do continente africano. Um conhecimento que foi naturalmente incorporado aos costumes da época e que é parte essencial na composição da arte popular do país.

Para a conservadora e restauradora de bens culturais do Forum da Cultura, Franciane Lúcia, a nova exposição desempenha um papel fundamental na preservação e valorização da cultura popular. “Admirar cada uma das peças em exibição nos leva a imaginar com que finalidade foi criada, quem a produziu, quando foi e que matérias-primas dispunha no momento da execução. Mesmo que não tenhamos todas as respostas, é possível notar nos detalhes a tradição, a criatividade, a resistência e os traços identitários. Tê-las em um espaço museal é a melhor forma de manter esses saberes preservados e próximos às pessoas”, reforça ela. “Em tempos de processos automatizados, reprodutibilidade técnica e inteligência artificial, olhar para a arte manual, produzida por mãos, com materiais da natureza, é como se reencontrar com nossa própria humanidade”.

Mais sobre a origem dos trançados

A arte dos trançados é comum em todo o planeta e tem origem milenar, fortemente vinculada a períodos pré-históricos da humanidade, em que tal habilidade foi desenvolvida com objetivos funcionais, destinadas a transportar, armazenar, colher e pescar. A técnica de entrelaçar fibras vegetais, fios ou cabelos precedeu a tecelagem e a cerâmica, sendo essencial para a sobrevivência e a cultura dos povos ancestrais.
As cestarias, produzidas de forma artesanal por diferentes povos, guarda uma simbologia e um conhecimento muito proeminente que é transmitido entre gerações. Existem alguns tipos fundamentais de técnicas de feitura como, por exemplo, o tipo entrelaçado, que conforme a maneira de trançar as fibras, podem se formar de modo cruzado, encanado, enrolado e torcido; e o espiral, que pode ser feito com ou sem armação de sustentação. Todas estas peças podem ter tamanhos e cores variados, não correspondendo a um padrão estético de determinado povo ou localização.

Museu de Cultura Popular – UFJF

Com um rico acervo de mais de 3 mil peças, o Museu de Cultura Popular é um importante espaço de preservação, resgate e valorização da arte oriunda de expressões e tradições populares.
Entre estatuárias, artefatos indígenas, brinquedos antigos, peças de crenças religiosas e outros diversos itens, das mais distintas origens, o visitante tem a oportunidade de realizar uma verdadeira viagem a outros tempos e locais, muitas vezes desconhecidos. O museu abriga objetos da cultura nacional e também de estrangeiras.
As peças, de natureza singular, aguçam a curiosidade e atuam como pontos de contato entre pessoas e culturas diferentes, propiciando, dessa forma, um intercâmbio extremamente importante para sociedade.
O Museu, criado em 12 de março de 1965 – data que marcou o centenário do folclorista Lindolfo Gomes –, foi transferido para o espaço do Forum da Cultura em 1973, sendo doado à UFJF em 30 de setembro de 1987. Sua origem está no trabalho do Prof. Wilson de Lima Bastos, que criou o então chamado “Museu do Folclore”, mais tarde renomeado como “Museu de Cultura Popular”.

Forum da Cultura

Instalado em um casarão centenário, na rua Santo Antônio, 1112, Centro, o Forum da Cultura é o espaço cultural mais antigo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em atividade há mais de cinco décadas, leva à comunidade diversos segmentos de manifestações artísticas, abrindo-se a artistas iniciantes e consagrados para que divulguem seus trabalhos.