Bastidores da gravação na Biblioteca Central/UFJF. (Foto: Carolina de Paula)

A Biblioteca Central da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e os estúdios da Faculdade de Comunicação (Facom/UFJF) estão entre os cenários de gravações do documentário “12 Dias”, que reconstitui o sequestro da Rua das Margaridas, ocorrido em agosto de 1990 no bairro Novo Horizonte, em Juiz de Fora. O episódio do sequestro é considerado um dos mais longos da história de Minas Gerais e permanece vivo na memória da população de Juiz de Fora.

A produção reúne diversos depoimentos, dentre eles alguns jornalistas que acompanharam o caso de perto, como o professor da Facom/UFJF, Álvaro Americano, que à época atuava como repórter e chegou a entrar na casa onde os reféns foram mantidos; e Mauro Pianta, jornalista e diretor de fotografia do documentário e um dos primeiros profissionais da imprensa local a chegar à Avenida Rio Branco, onde o grupo criminoso estacionou antes de seguir para o sítio na Rua das Margaridas.

Mais do que recontar um crime de repercussão nacional, o documentário propõe uma reflexão sobre o papel da imprensa na cobertura policial e sobre os direitos humanos no sistema carcerário.

O documentário é financiado por meio da Lei Paulo Gustavo. Além das gravações na UFJF, a produção também passará por cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília, com possibilidade de gravações em São Paulo.

Pesquisa histórica e acervo da UFJF

A obra, baseada em uma extensa pesquisa da jornalista Fernanda Visian, teve início há cerca de dezoito anos, ainda durante seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Jornalismo. Grande parte do levantamento documental foi realizada na Biblioteca Central da UFJF, a partir de edições impressas dos jornais Tribuna de Minas e Diário da Tarde, preservadas no acervo da Universidade.

“Durante mais de um mês, pesquisamos diariamente na Biblioteca Central. Tivemos acesso a reportagens da época que não estão digitalizadas. Esse acervo foi essencial para reconstruir a cronologia dos 12 dias do sequestro”, explica Fernanda. Segundo ela, o projeto só saiu do papel em 2023, com a aprovação do financiamento. Além do documentário, um livro também será lançado como desdobramento da pesquisa.

Imagem mostra carro forte com sequestradores na Avenida Barão do Rio Branco, no centro de Juiz de Fora. (Imagem: Acervo Impulso Filmes) 

Um crime que parou o país

No dia 24 de agosto de 1990, cinco detentos renderam agentes penitenciários e fizeram nove reféns na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Após negociações, o grupo deixou a unidade prisional em um carro-forte com quatro policiais militares — um deles foi morto durante a ação. No dia seguinte, os sequestradores chegaram a Juiz de Fora e estacionaram na Avenida Barão do Rio Branco, no centro da cidade.

De lá, seguiram para o bairro Grajaú e, nas proximidades da Igreja Nossa Senhora do Líbano, receberam armamento e veículo. Em seguida, deslocaram-se em direção à BR-040 com o coronel Edgar Soares. Pouco depois, renderam uma família em um posto de gasolina e retornaram à cidade, onde invadiram um sítio na Rua das Margaridas, no bairro Novo Horizonte, onde ficaram por 12 dias.

No décimo dia, o grupo tentou fugir do sítio e trocou tiros com a polícia. Três deles ficaram feridos e se entregaram. No 11º dia de sequestro, os dois fugitivos deixaram a casa. Um dia depois, houve a liberação do coronel e a prisão dos outros dois criminosos. 

Apoio da Universidade

Para o sócio-diretor da Impulso Filmes, Daniel Couto, ex-estudante de Jornalismo da UFJF e doutorando em Cinema na Universidade, o apoio institucional foi fundamental para a realização do projeto. “A UFJF contribuiu com a estrutura da Facom. Gravamos depoimentos no laboratório de rádio e no estúdio de televisão, escolhendo cenários que dialogam com a atuação profissional dos personagens na época”, afirma.

Couto também destaca a importância simbólica da Universidade. “A história passa pela UFJF, seja pelo acervo da biblioteca, seja pelos professores e jornalistas que participaram da cobertura. Para nós, que também somos ex-alunos, voltar à Instituição com esse projeto é muito significativo.”

Além da reconstrução histórica, “12 Dias” busca ampliar o debate sobre a cobertura midiática de crimes de grande repercussão. “O sequestro teve entradas constantes nos plantões de TV e mobilizou a cidade. Queremos discutir como a imprensa se posicionou e como esse tipo de cobertura impacta a sociedade”, explica Daniel Couto.

Vivência e memória

Coronel Edgar Soares sendo liberado do sequestro da Rua das Margaridas. (Imagem: Acervo Impulso Filmes)

Mauro Pianta, diretor de fotografia do documentário e também personagem da narrativa, relembra o clima vivido pela cidade durante o sequestro. “Havia muito medo, que era real, mas, ao mesmo tempo, uma curiosidade enorme. As pessoas se aproximavam, mesmo diante de homens armados. As imagens mostram multidões muito próximas dos sequestradores”, relata.

Segundo ele, o documentário também funciona como um exercício de memória coletiva. “Rever fotos e arquivos traz à tona lembranças e reflexões sobre como a cidade viveu aqueles dias.”

A previsão é que “12 Dias” seja finalizado no segundo semestre deste ano. A partir de 2027, o documentário deve iniciar sua trajetória em festivais e, posteriormente, buscar exibições em canais de televisão.