Pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) integram a obra “Eleições na primeira fase da Justiça Eleitoral (1932–1937)”, publicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O livro reúne textos com análises sobre a reorganização política do país após a Revolução de 1930 e os desafios enfrentados pela recém-criada Justiça Eleitoral na condução das primeiras eleições sob o novo modelo institucional.

Leandro Gonçalves, um dos autores do capítulo, é pesquisador do PPGH e professor do Departamento de História da UFJF. (Foto: Twin Alvarenga)
Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto, do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), são autores do capítulo “Fascismo nas urnas: o integralismo nas eleições”, que examina a atuação da Ação Integralista Brasileira (AIB) diante das transformações inauguradas pelo Código Eleitoral de 1932.
Organizada pelos professores Paolo Ricci (USP) e Jaqueline Porto Zulini (FGV), a coletânea é o terceiro volume da série “Eleições na República” e conta com apresentação da ministra do Supremo Tribunal Federal e presidente do TSE, Cármen Lúcia. A obra está disponível gratuitamente na Biblioteca Digital da Justiça Eleitoral (BDJE) e no Catálogo de Publicações do Tribunal.
Integralismo e eleições
No capítulo elaborado pelos pesquisadores da UFJF, o integralismo é analisado para além de sua dimensão como movimento de massa. O estudo evidencia sua estruturação enquanto partido político nacional e sua inserção no sistema eleitoral organizado pela recém-criada Justiça Eleitoral. Segundo Gonçalves, a investigação parte da compreensão da cultura política integralista para explicar seu comportamento nas urnas.
“Os integralistas não votavam apenas em candidatos, mas em uma causa, em uma ideologia muito bem estruturada. Isso ajuda a entender o comportamento eleitoral do movimento, que mobilizava eleitores a partir de valores, símbolos e uma visão de mundo autoritária e nacionalista”, explica o pesquisador.
A trabalho também destaca a ampla capilaridade do integralismo, com núcleos espalhados por diferentes regiões do país, e o uso estratégico da propaganda política. Uniformes, marchas e símbolos funcionavam como instrumentos de mobilização, reforçando o sentimento de pertencimento e se convertendo em uma atuação eleitoral marcada pela disciplina e pela organização.

Odilon Caldeira é vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em História da UFJF e coordenador de linha de pesquisa Política, Cultura e Usos do Passado. (Foto: Carolina de Paula/UFJF)
Novas regras, novas estratégias
O estudo evidencia também como o integralismo soube se apropriar das mudanças introduzidas pelo Código Eleitoral de 1932, que instituiu o voto secreto, o sufrágio feminino e a própria Justiça Eleitoral. Para os autores, essas inovações abriram espaço para a atuação de movimentos ideológicos fora das tradicionais estruturas políticas locais.
De acordo com Caldeira Neto, o integralismo percebeu nas eleições uma possibilidade estratégica de ampliação de sua influência política, mesmo mantendo uma visão autoritária de poder.
“Ainda que por meio da disputa eleitoral, o integralismo reproduzia seus padrões ideológicos fundamentais, como a defesa de uma ordem autoritária e um discurso profundamente anticomunista, inserindo-se na política institucional sem abandonar esses princípios”, afirma.
O professor ressalta que o capítulo contribui para reflexões atuais sobre a presença de grupos antidemocráticos em processos eleitorais, mostrando como movimentos que contestam a democracia podem, ao mesmo tempo, se valer de suas instituições para disputar espaço político.
Reconhecimento institucional
Para os autores, a participação na publicação do TSE representa um reconhecimento da produção acadêmica desenvolvida na UFJF. Segundo Gonçalves, a presença da Universidade em uma obra institucional de alcance nacional reforça a relevância da pesquisa realizada no interior de Minas Gerais.
“Ter pesquisadores da UFJF em uma obra de referência do TSE coloca a Universidade no centro do debate nacional sobre história política e eleitoral e evidencia a qualidade da pesquisa desenvolvida no nosso Programa de Pós-Graduação em História”, destaca.
Caldeira Neto também enfatiza o papel do Laboratório de História Política e Social (LAHPS/UFJF) na projeção da Universidade no debate público. “As pesquisas desenvolvidas aqui dialogam com o campo acadêmico, jurídico e institucional, além de reforçarem o compromisso da universidade pública com a defesa da democracia”, afirma.
Sobre a obra
Publicada no Dia da Justiça, a obra “Eleições na primeira fase da Justiça Eleitoral (1932–1937)” analisa temas como a constitucionalização do período, a estreia das mulheres no processo eleitoral e os impactos da modernização do voto no Brasil. O livro é resultado de uma cooperação entre o TSE, a USP e a FGV e integra um projeto institucional voltado à preservação e difusão da memória eleitoral brasileira.
A obra pode ser acessada gratuitamente na Biblioteca Digital da Justiça Eleitoral e no Catálogo de Publicações do TSE.
