No Brasil, cerca de 55% das gestações são não intencionais, segundo o último estudo “Nascer no Brasil”, divulgado em 2014. O Dia Mundial da Contracepção é lembrado em 26 de setembro. A data reforça a importância do planejamento familiar e do acesso a contracepção para todos os gêneros.
Em Juiz de Fora, a realidade não é diferente. A avaliação de pacientes encaminhadas para laqueadura tubária no município de Juiz de Fora revelou que cerca de um terço (30,4%) das 293 gestantes que solicitaram a laqueadura durante o parto ainda tinham dúvidas sobre a realização do procedimento, e essas dúvidas estavam associadas ao fato de a gestação não ter sido planejada.
Para os especialistas, oferecer planejamento familiar eficaz e embasado, evitando gestações não planejadas, representa também prevenir a morte de mulheres jovens. Em 2024, a mortalidade materna no Brasil foi de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos, de acordo com os dados mais recentes do SIM-DATASUS, consultados pelo Observatório da Saúde Pública. Esse resultado atende a meta estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU), para 2030, que é de 70 mortes por 100 mil nascidos. Porém, a meta brasileira estabelecida pelo Governo Federal, em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), é de, no máximo, 30 mortes por 100 mil nascidos vivos.

Acolhimento inicial de paciente no Ambulatório de Ginecologia e Planejamento Familiar. Foto – Comunicação HU-UFJ-HU Brasil
O Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), vinculado à HU Brasil, disponibiliza métodos orais combinados e de progesterona, a inserção de DIU (dispositivo intrauterino) de cobre, distribuição de camisinhas externas e a esterilização definitiva (laqueadura tubária e vasectomia). A laqueadura tubária, realizada por diferentes técnicas (inclusive videolaparoscópica), é feita no Serviço de Ginecologia. Havendo opção pela vasectomia, o encaminhamento é para o Serviço de Urologia.
O planejamento familiar deve iniciar-se com o oferecimento de conhecimentos aos usuários sobre os meios e métodos disponíveis, com o intuito de programar o futuro reprodutivo e sexual, permitindo a escolha do melhor momento para uma gravidez desejada, além de evitar gestações não planejadas. O HU-UFJF/HU Brasil conta com o “Grupo de Direitos Reprodutivos”, da equipe de Enfermagem Especializada, que promove a apresentação das diversas possibilidades para o planejamento reprodutivo e sexual. Após essa etapa, é marcada uma consulta no Ambulatório de Planejamento Familiar.
“Não existe um método melhor ou pior. É necessária uma análise individualizada. A definição do método contraceptivo dependerá da escolha de cada paciente (ou do casal) considerando-se as condições de saúde dos usuários e as expectativas reprodutivas individuais. É nesse momento que a orientação médica é fundamental para implementação do método adequado. Não existem métodos, medicações ou procedimentos sem riscos ou contraindicações. Por isso, a orientação médica é importante”, explica Geraldo Vitral, médico ginecologista do HU-UFJF/HU Brasil.
O Ambulatório de Ginecologia e Planejamento Familiar, localizado no Hospital Universitário, realiza uma média de 15 a 20 inserções de DIU de cobre por mês, e laqueadura para mulheres em pós-parto ou que desejam a laqueadura voluntária, além de consultas especializadas. Todo o serviço é ofertado via Sistema Único de Saúde (SUS), 100% gratuito.
“O DIU de cobre representa uma importante estratégia de saúde pública ao permitir um método contraceptivo sem os efeitos adversos que podem estar presentes em contraceptivos hormonais (elevação de pressão arterial e aumento do risco de trombose, por exemplo), e capaz de garantir contracepção eficaz (menos de 1% de falha) e duradoura (até dez anos). Trata-se de um método que não depende de disciplina ou atitudes para garantir sua eficácia”, aponta Luciano Fernandes Loures, médico ginecologista do HU-UFJF/ HU Brasil.
Sem distinção de gênero
“Temos tentado evitar o uso de gêneros associados à camisinha, temos pacientes mulheres trans que usam camisinha peniana, por exemplo. Assim como temos pacientes homens trans que colocaram DIU de cobre conosco. Orientamos sobre o acesso aos métodos dentro do SUS, inclusive a camisinha interna, nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ”, explica Loures.
Pesquisa no HU-UFJF avalia o controle da dor durante a inserção de DIU de cobre
Uma pesquisa que está sendo realizada no HU-UFJF/HU Brasil recrutou mais de 100 pacientes que passaram pela inserção de DIU no Ambulatório de Planejamento Familiar da instituição. “Estamos avaliando a percepção de dor das pacientes na realização do procedimento, a partir de questionários padronizados com escalas de percepção da dor e ansiedade”, comenta Luciano Loures, que também é professor orientador da pesquisa.
O estudo compara a intervenção pela aplicação de anestésico local (lidocaína) no colo do útero, com o procedimento padrão sem a realização de intervenção anestésica, e também com uma medida não farmacológica, a aromaterapia com lavanda, antes e após o procedimento. A análise dos dados busca avaliar o efeito do anestésico no controle da dor e na satisfação das pacientes.
“A queixa de dor no procedimento tem sido historicamente negligenciada e estudos atuais mostram que o controle da dor na inserção do DIU é um campo de estudo e aperfeiçoamento. Reduzir a dor e impressões negativas relacionadas ao método representa um passo para quebrar barreiras e ampliar a aceitação ao método”, pontua o pesquisador.
Pacientes que realizam a inserção de DIU de cobre permanecem em acompanhamento no HU-UFJF, com a realização de ultrassonografia transvaginal de checagem do posicionamento do DIU, quando necessário, e acompanhamento um ano após a inserção, para estabelecer a adaptação e desejo de permanência do método.
Contracepção
Historicamente, o peso da responsabilidade da contracepção permanece sobre a mulher. Entre março de 2023 e abril de 2025, Luciano Loures realizou um levantamento com as mulheres encaminhadas para laqueadura tubária em Juiz de Fora, com mais de 500 pacientes entrevistadas. Dos casais avaliados, apenas 6% optavam pela vasectomia e, em mais de 40% deles, a opção do procedimento no homem nem havia sido proposta.
Acesso ao serviço
“Pacientes de Juiz de Fora e região da Zona da Mata devem procurar a Unidade de Saúde mais próxima e solicitar o encaminhamento para o HU-UFJF”, afirma Geísa Veloso, enfermeira obstétrica responsável pelo Ambulatório de Ginecologia e Planejamento Familiar.
