
Tìtulo Honoris Causa foi entre a Steletes pela reitora da UFJF, Girlene Alves, e o vice-reitor, Telmo Ronzani (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) concedeu nesta terça, 7, o título de Doutor Honoris Causa ao economista João Pedro Stédile, um dos fundadores e membros da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A cerimônia aconteceu no Anfiteatro de Estudos Sociais e contou com a presença da reitora, professora Girlene Alves, e de outras autoridades do Conselho Superior (Consu) da UFJF, além da prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão, que era reitoria da Universidade à época do início da parceria com o MST.
A homenagem celebra os 26 anos dessa parceria, que teve início no ano 2000 com a 1ª edição do curso de extensão “Realidade Brasileira”. Ao longo desse tempo, inúmeras atividades foram realizadas no âmbito do curso e dos projetos Plantio Solidário e Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (Jura). Este último, inclusive, deu início à sua 12ª edição e segue com programação aberta ao público até o final desta quarta-feira, 8.
“Estou muito feliz de receber essa homenagem, em nome do MST, é claro. Por ser aqui uma universidade pública e ser de Juiz de Fora, onde há muitos anos temos uma parceria científica e pedagógica com a mesma visão de resolver os problemas da nossa sociedade”, afirma Stédile
Três fatores para a justiça social no Brasil
Em consonância com o tema da 12ª edição da Jura, Stédile falou ao público sobre questões ambientais, mudanças climáticas e os desafios que cercam as lutas sociais no Brasil e no mundo. O economista é membro de organizações continentais, como a Vía Campesina e a Coordenadoria Latino-americana de Organizações do Campo (Cloc), e autor de vasta produção bibliográfica sobre o assunto. Para ele, três fatores devem andar juntos em prol da justiça social no Brasil: povo organizado, conhecimento e estado.
“Os grandes problemas da sociedade só vão se resolver com a conjugação de três fatores. O primeiro, é que os trabalhadores têm que se organizar, mas só isso não resolve. O segundo fator é que nós precisamos de conhecimento. Você pode ter vontade, pode ter idealismo, pode querer, mas se não saber, não vai resolver. E o terceiro fator é o Estado. O Estado tem que estar a serviço das maiorias, porque ele que reúne os recursos públicos, como diz o nome, os recursos de todo o povo. Então, para você resolver os problemas e enfrentá-los, tem que conjugar esses três fatores: povo organizado, conhecimento e Estado. Eles separados não resolvem nada.”

“Para ter acesso ao conhecimento científico, tem que frequentar a universidade, tem que ter interação com a educação nos seus vários níveis”, afirma Stédile sobre um dos três fatores para a justiça social no Brasil. (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
Ações essenciais e inadiáveis
Durante a cerimônia de outorga do título, o homenageado defendeu a adoção de um programa mínimo para a sustentabilidade no planeta, que inclui um conjunto de ações essenciais e inadiáveis para a sobrevivência futura.
Entre as ações citadas está o desmatamento zero; a realização de campanhas para reflorestamento; a mudança da matriz energética dos transportes das cidades (com uso, por exemplo, de carros elétricos e transporte público elétrico e gratuito); a disseminação da agroecologia (para produção de alimentos saudáveis, em contraste com a atual situação do Brasil, país que mais utiliza agrotóxico no mundo); e a luta contra os conflitos armados.

“Não há governo que resolva a desigualdade brasileira se os trabalhadores não se organizarem e lutarem por seus direitos”, afirma Stédile (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
Gratidão e orgulho
A Reitora da UFJF, professora Girlene Alves, falou sobre o sentimento de gratidão a Stédile, agora devidamente reconhecido pela Universidade, “por ser uma figura que sempre pautou sua história de vida no compromisso com um país justo e soberano para todos”. A prefeita da cidade, Margarida Salomão, relembra o tempo em que estava na reitoria da instituição e percebeu, em 2000, a parceria frutífera que a relação com o MST traria para a democracia brasileira. Parceria que, segundo a prefeita, com a entrega da honraria se mostra exemplar para outras universidades brasileiras.
O MST
Fundado em 1984, o MST é um movimento social que busca organizar trabalhadores rurais e sociedade para a conquista da Reforma Agrária. A sigla articula o acesso de camponeses pobres à terra, o uso de práticas sustentáveis de cultivo, a conscientização sobre direitos e justiça social, e luta por educação emancipatória.
O movimento está presente em 24 estados nas cinco regiões do país e segue o que prevê a “lei de terras” de 1964 no Brasil, que assegura sobre a função social da terra; e a última constituição, promulgada em 1988, que entende a propriedade como um direito relativo e condicional (e não absoluto) do cidadão, com enfoque na política agrícola, fundiária e de reforma agrária do país.
Um dos mais conhecidos instrumentos políticos adotados pelo movimento são as ocupações de terreno ou imóvel para fins de manifestação. Estas são consideradas legítimas e não tipificadas como crime, já que a pressão popular é uma característica do Estado Democrático de Direito.

