Os números crescem em silêncio, mas contam histórias de milhares de mulheres em todo o Brasil. Em janeiro de 2026, o Judiciário brasileiro registrou 947 novos casos de feminicídio, um aumento em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao longo dos últimos cinco anos, esse tipo de crime praticamente triplicou no país, saltando de 4.210 registros em 2020 para mais de 12 mil em 2025.

Por trás das estatísticas de assassinato, há também aumento de outras formas de violência contra a mulher. Segundo dados do Painel de Estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que registra os indicadores do Judiciário, só no primeiro mês de 2026 foram mais de 99 mil novos processos relacionados à violência doméstica. No ano passado, o total chegou a quase 1,2 milhão. A busca por proteção também revela a dimensão do problema: em 2025, quase 630 mil medidas protetivas foram concedidas, mais do que o dobro do registrado cinco anos antes.

Diante desse cenário, compreender a violência contra a mulher também é uma forma de enfrentá-la. E nesse contexto, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) se torna espaço de produção de conhecimento, escuta e resistência. Esta reportagem reúne algumas dessas experiências para mostrar como mulheres pesquisadoras têm produzido reflexões, denúncias e caminhos possíveis na UFJF.

Violência como parte do sistema
A violência contra a mulher não começa no momento da agressão. Antes disso, ela já foi construída em ideais, crenças e padrões que moldam a forma como a sociedade enxerga homens e mulheres. É a partir desse olhar que a psicóloga e pesquisadora Monique Bernardes, doutora pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia e membro do Núcleo de Estudos em Violência e Ansiedade Social (Nevas), investiga os processos que sustentam e legitimam esse tipo de violência.

Para Monique, o cenário atual do Brasil é marcado por um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o país possui leis importantes no combate à violência, os índices continuam altos. “A gente precisa se perguntar se a violência está aumentando ou se estamos reconhecendo mais práticas que antes eram naturalizadas”, afirma.

Monique Bernardes, doutora pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia e membro do Núcleo de Estudos em Violência e Ansiedade Social (Nevas), investiga os processos que sustentam e legitimam esse tipo de violência (Foto: arquivo pessoal)

Em sua tese, a pesquisadora propõe entender a violência como parte de um sistema. “A violência é sustentada por crenças, atitudes e normas que são compartilhadas socialmente”, explica. Nesse processo, os estereótipos de gênero aparecem como ponto de partida, ao definir como homens e mulheres devem agir e quais papéis devem ocupar.

A partir desses padrões, surge o sexismo, que atua como um mecanismo de controle. “Quando as mulheres seguem esses papéis, elas são ‘recompensadas’. Quando desafiam, acabam sendo punidas, muitas vezes com violência”, destaca. Esse processo nem sempre é explícito e pode aparecer em atitudes e discursos que parecem naturais, mas reforçam desigualdades.

O estudo também chama a atenção para formas mais sutis desse fenômeno. Enquanto o sexismo hostil se manifesta de maneira direta, o chamado sexismo benevolente aparece como cuidado ou proteção. Por parecer algo positivo, ele é mais aceito socialmente, mas também ajuda a manter as mulheres em posições de subordinação”, explica.

Esses elementos, segundo a pesquisadora, ajudam a entender por que a violência contra a mulher não se resume a casos isolados, mas faz parte de uma estrutura social mais ampla, que atravessa diferentes espaços e relações. Diante disso, ela reforça que o enfrentamento precisa ir além das consequências. “A gente precisa atuar na base, romper com estereótipos e com as manifestações de sexismo para conseguir combater a violência”, afirma.

Questão de moradia
Se os dados mostram a dimensão da violência, é no território que ela se materializa, muitas vezes dentro de casa. É a partir desse olhar que a pesquisadora Lunária Assis, mestre em Geografia pela UFJF, investiga a relação entre a violência doméstica e o acesso à moradia em Juiz de Fora.

Sua dissertação analisa o Programa Auxílio-Moradia, implementado em 2021 pela Prefeitura, que prevê o apoio financeiro temporário para mulheres em situação de violência. “O auxílio-moradia representa um recurso fundamental para que essas mulheres consigam romper com o ciclo de violência e deem um primeiro passo para reconstruir suas condições de vida”, explica a pesquisadora.

Lunária Assis, mestre em Geografia pela UFJF, investiga a relação entre a violência doméstica e o acesso à moradia em Juiz de Fora (Foto: arquivo pessoal)

Ao mapear os registros de violência doméstica entre 2021 e 2024, o estudo revela um cenário que impacta toda a cidade: foram 18.174 ocorrências no período, com uma média de 1.786 casos a cada 100 mil mulheres. Em 76,99% dos casos, a violência aconteceu no ambiente doméstico, espaço que, para muitas, deixou de ser sinônimo de segurança. “A casa, normalmente associada a um local de descanso, acaba se tornando um espaço de perigo para as mulheres”, aponta Lunária.

A pesquisa também evidencia desigualdades estruturais: mulheres negras representam 55,42% das vítimas, e, em mais de 65% dos casos, o agressor mantém ou manteve vínculo afetivo com a vítima. Nesse sentido, o estudo busca compreender como essas relações de poder se reproduzem e dificultam o rompimento com a violência.

Para a orientadora da dissertação, Helena Rizzatti, professora do Departamento de Geociências da UFJF, o diferencial da pesquisa está na articulação entre dados, território e política pública. “A pesquisa demonstra, a partir de análises quantitativas e qualitativas e do trabalho de campo, como a segurança da moradia é um fator central para que a mulher consiga sair da situação de violência”, destaca.

Embora o programa cumpra um papel importante ao retirar mulheres de situações de risco imediato e oferecer acompanhamento psicossocial e jurídico, o estudo também aponta limites, como a ausência de políticas de moradia permanente e de inserção no mercado de trabalho. Ainda assim, ao evidenciar caminhos e lacunas, a pesquisa reforça o papel da Universidade na produção de conhecimento comprometido com a transformação social.

Helena Rizzatti, professora do Departamento de Geociências da UFJF, ao centro, junto a integrantes do grupo de pesquisa (Foto: Arquivo pessoal).

Mulheres na política
A violência contra a mulher também se manifesta nos espaços de poder, nem sempre de forma explícita, mas presente nas disputas por reconhecimento, nos discursos e nas definições sobre quem pode ou não ser incluída. É nesse campo que a professora Célia da Graça Arribas, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, desenvolve suas pesquisas sobre gênero, política e conservadorismo.

Célia da Graça Arribas, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, desenvolve suas pesquisas sobre gênero, política e conservadorismo (Foto: arquivo pessoal)

Em seu estudo mais recente, a pesquisadora analisa a atuação de mulheres em espaços políticos conservadores, buscando entender como essas lideranças constroem suas imagens e discursos. “Não existe uma definição neutra de ‘mulher’ ou ‘família’. Essas noções são construídas politicamente”, explica. Segundo ela, essas definições orientam quais mulheres serão reconhecidas, protegidas ou, muitas vezes, excluídas das políticas públicas.

A pesquisa mostra que a presença feminina nesses espaços não significa, necessariamente, avanço para todas. “A ultradireita contemporânea não exclui mulheres; ela as instrumentaliza”, afirma. Isso acontece quando valores como maternidade, religiosidade e defesa da família são usados como estratégia política, ajudando a legitimar projetos que, em muitos casos, restringem direitos de outras mulheres.

Nesse cenário, a violência política de gênero também aparece de forma simbólica, na disputa por reconhecimento. Um exemplo citado pela pesquisadora é o da deputada Erika Hilton, mulher trans que, mesmo à frente da Comissão das Mulheres, tem sua legitimidade constantemente questionada. Para Célia, isso revela como nem todas são reconhecidas como mulheres dentro desses projetos políticos.

Essas disputas não se limitam aos espaços institucionais, elas também estão presentes no ambiente digital, onde ganham visibilidade e alcance. É nessa perspectiva que a doutoranda Isabella Dias, do Programa de Pós-graduação em Comunicação, realiza a sua pesquisa sobre a violência contra a mulher na comunicação política.

Partindo de uma compreensão ampliada do conceito de violência, a pesquisadora analisa como práticas simbólicas e discursivas atuam na deslegitimação e no silenciamento de mulheres que ocupam ou disputam espaços de poder. “Não se trata apenas de episódios isolados, mas de um conjunto de práticas que operam continuamente na tentativa de negar a presença dessas mulheres no campo político”, explica.

Isabella Dias, do Programa de Pós-graduação em Comunicação, realiza a sua pesquisa sobre a violência contra a mulher na comunicação política (Foto: arquivo pessoal)

A partir da análise de comentários em redes sociais durante campanhas eleitorais, o estudo evidencia que nem sempre essa violência se manifesta de forma explícita. Muitas vezes, ela aparece em falas recorrentes questionando a capacidade, a aparência ou o pertencimento dessas mulheres ao espaço público.  “Com frequência, essa violência opera por meio de desqualificações reiteradas, ironias e enquadramentos depreciativos que, pela repetição, acabam se naturalizando”, aponta.

Ao longo das investigações, Isabella também observa que essas manifestações se intensificaram no ambiente digital, onde as plataformas potencializam a circulação desses discursos. Nesse sentido, violência de gênero se estabelece como um processo contínuo, que interfere diretamente na forma como as mulheres são percebidas e aceitas na política.