Nesta volta às aulas, a campanha “Orgulho de ter você na UFJF” celebra pessoas que inspiram e transformam a educação no dia a dia. Que fazem da Universidade um lugar vivo e em movimento, para além das oportunidades, titulações e currículos. Nos pontos de ônibus e banners espalhados pelo campus, a campanha destaca alguns desses orgulhos. Nas redes sociais, outros tantos. Olha para você ver.

Em texto, já revelou o que fazem os professores e técnico-administrativos em Educação (TAEs) quando deixam o ambiente acadêmico. Agora, a “Orgulho de ter você na UFJF” escapa do slogan para alcançar os alunos empreendedores que já deixaram os limites do campus. A pergunta da vez é: o que fazem esses estudantes quando deixam de vez o ambiente acadêmico?

Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), empresas fundadas por estudantes a partir de vivências acadêmicas têm destaque nacional em diferentes setores do mercado. Conheça negócios de sucesso que nasceram “nos corredores da faculdade” ou “no chão da república” e que marcam a capacidade de ex-alunos de aproveitar os espaços de experimentação e construção oferecidos pela Universidade.

Viva Eventos
A Viva Eventos é uma empresa de formaturas criada no início dos anos 2000 por cinco amigos da UFJF. Surgiu da experiência direta com eventos durante a faculdade e da identificação de falhas nas festas promovidas naquela época. Hoje, a Viva se consolida como a maior do segmento no país.

(da esquerda para a direita) Mylliano Salomão, Fernando Sotrate, Marcelo Gonçalves, Renato Filgueiras e Vitor Pedrosa, em foto de 2005, quando ainda eram estudantes dos cursos de Direito, Odontologia e Administração e criaram a boate Ecco, em Juiz de Fora (Foto: Arquivo pessoal)

Entre os fundadores, Renato Filgueiras, ex-aluno de Direito, relata a importância da Universidade na história da empresa: “a UFJF foi o berço onde nasceu a Viva Eventos”. Ele conta que a origem do negócio foi na organização de chopadas e micaretas, como as conhecidas “Administrando a Boca Direitinho” e “Carnadministrando”, junto dos amigos que posteriormente se tornaram sócios. “Nasceu no chão da república do meu sócio, a gente sentado ali, querendo criar um evento de qualidade para os alunos”, relembra.

O contato direto com a Universidade foi essencial para estruturar o negócio. “A UFJF de alguma forma ajudou muito, porque nossos clientes eram nossos amigos dentro da faculdade”, afirma Filgueiras. Ele relembra como as festas começaram a ganhar cara de negócio: “Centenas de colaboradores, freelancers, os alunos ganhavam vendendo ingresso, gerava um relação muito boa entre os participantes. Marcou uma geração”, afirma.

Filgueiras também destaca o contexto da época, em que o empreendedorismo ainda não era comum no ambiente acadêmico. “Não se falava em empreendedorismo, não existia empreendedorismo no dicionário”. Mesmo com todos os empecilhos, eles avançaram e superaram o estranhamento com o negócio entre os familiares e colegas. “A gente foi quebrando essas barreiras dentro da faculdade e fora”.

Sócios-fundadores da Viva Eventos, maior empresa do país no segmento de formaturas. (Foto: Arquivo pessoal)

A Viva ganhou escala nacional e ampliou sua atuação. “Nós somos hoje a maior empresa de formaturas do Brasil, presente em 49 unidades franqueadas no país”. Segundo o sócio-fundador, a empresa já alcança cerca de 300 cidades e está inserida em um mercado que “passa de sete bilhões por ano”. Para o futuro, a proposta é ampliar ainda mais. “A gente continua firme com uma visão de crescimento de chegar em 80 cidades franqueadas no Brasil nos próximos anos”.

A relação com a Universidade ainda é forte. “A Federal continua sendo o nosso cliente mais relevante”, destaca. Hoje, além da atuação nacional, a empresa segue envolvendo estudantes em suas operações e reforça o vínculo com Juiz de Fora, mantendo a proposta de gerar valor e desenvolvimento na cidade a partir dos eventos.

Chico Rei
A Chico Rei nasceu nos corredores do Instituto de Artes e Design (IAD), e se transformou, ao longo dos anos, em um dos principais negócios criativos do país. Fundada por Bruno Imbrizi ainda na graduação, a marca completa 18 anos em 2026 com mais de 1 milhão de clientes, dentro e fora do Brasil. Hoje, o grupo também reúne a Uma Penca, plataforma tecnológica que amplia esse modelo ao permitir que outras marcas e criadores utilizem a estrutura da empresa em seu negócio e a Mais Uni, focada em facilitar a vida de escolas, pais e alunos na compra de uniformes.

Bruno Imbrizi é fundador da Chico Rei, empresa que transformou sua base criativa em novas oportunidades de crescimento com a Uma Penca e a Mais Uni. (Foto: Divulgação/Chico Rei)

Segundo o fundador, a ideia da Chico surgiu como uma forma de colocar no mundo o que ele aprendia e conhecia dentro da Universidade. “Era uma forma de levar para um bocado de lugares o que eu criava, o que eu pensava durante aquele momento”. Além disso, a UFJF foi fundamental para a construção de relações, como com a sua primeira sócia, uma amiga da faculdade. “A Federal foi importante para mim não só nesse desenvolvimento, seja ele artístico ou crítico, mas também para gerar relações”.

A Chico Rei começou de forma simples, com camisetas produzidas de maneira artesanal, e cresceu apoiada na valorização da cultura brasileira, transformando estampas em um espaço de expressão artística.

As estampas remetem à valorização da cultura brasileira, transformando-se em um espaço de expressão artística. (Foto: Divulgação/Chico Rei)

Com o tempo, a marca cresceu e abriu caminho para novos negócios. A partir da própria estrutura da Chico Rei, nasceu a Uma Penca, plataforma que permite que artistas, marcas e organizações criem suas próprias lojas. “A Chico Rei virou berço também de artistas independentes”, explica Imbrizi sobre o sucesso da marca ter levado à criação de um novo modelo de negócio.

A Mais Uni surge como um desdobramento desse modelo criado pela Chico, aproveitando a estrutura já existente para atuar em outro segmento: a produção e venda de uniformes escolares de forma digital. A proposta da plataforma é facilitar a experiência de compra para famílias e instituições de ensino. A marca também incorpora práticas sustentáveis, como o uso de algodão certificado e políticas de compensação ambiental em suas embalagens.

Hoje, as três frentes coexistem como partes de um mesmo ecossistema que nasceu na UFJF.  “A gente tinha a faca e o queijo na mão, e mineiro sabe o que fazer com a faca e o queijo na mão”, diverte-se o fundador.

Academy Abroad
A Academy Abroad é uma empresa de educação executiva fundada pelo médico Rafael Kenji, formado pela UFJF. Criada a partir das experiências do estudante ainda na graduação, a empresa se desenvolveu ao longo de seis anos e hoje conta com seis sócios investidores. A Academy atua com mentorias de carreira e educação, tecnologia para comunidades digitais e programas de imersão internacional em instituições como Harvard, MIT e Babson College, além de experiências na China.

Rafael Kenji é fundador da Academy Abroad, empresa focada em impulsionar carreiras por meio de programas internacionais, negócios e educação a distância (Foto: Arquivo pessoal)

Rafael também atua como representante da sociedade civil na ONU pelo Grupo Principal das Nações Unidas para Crianças e Jovens (UNMGCY) e como palestrante na TEDx Speaker. Sua dedicação o rendeu reconhecimentos como a lista “8 Mentes Brilhantes”, da revista IstoÉ Dinheiro, e o Latin America Quality Awards.

Em 2017, ao lado de colegas da Faculdade de Medicina, ele criou a Medic Júnior Consultoria em Saúde, uma das primeiras empresas juniores da área. Segundo Kenji, essa experiência ampliou sua visão sobre o mercado e sobre as possibilidades da profissão. “Com a educação empreendedora, a partir do movimento, aprendi conceitos além da formação médica”. O contato com colegas de outros cursos e áreas, como marketing, vendas, tecnologia, economia e gestão, contribuiu ainda mais para seu lado empreendedor.

Para ele, a Universidade teve impacto direto na forma como a empresa foi construída. “Minha formação na UFJF foi uma formação muito completa, direcionada a uma medicina humanizada, com uma base muito sólida no sistema público de saúde”. De acordo com  Kenji, essa base o ajudou a desenvolver sua visão de cuidado: “É a mesma visão que eu aprendi na saúde, colocando o paciente no centro do cuidado, escutando suas dores e buscando a melhor forma de resolver cada problema”, relata.

A Academy Abroad em sua primeira imersão internacional a Harvard, em 2022. (Foto: Arquivo pessoal)

A ideia da Academy Abroad surgiu no último período da graduação, após um estágio em Harvard, ao vivenciar as dificuldades burocráticas de acesso a oportunidades internacionais. “A Academy Abroad surgiu então de uma dor pessoal: facilitar a ponte entre estudantes brasileiros e oportunidades educacionais e profissionais dentro e fora do país”, explica.

Kenji também destaca o papel do Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia (Critt) nesse percurso. “O Critt também teve um papel importante na educação empreendedora, como incentivador do Movimento Empresa Júnior e através dos programas de inovação”, afirma.

Magenta Studio
O Magenta Studio nasceu do encontro de trajetórias na Faculdade de Comunicação (Facom) da UFJF. Fundado em 2009 por Karolina Vargas e Polyana Matozinhos, o estúdio surgiu logo após a formatura. Quatro anos depois, em 2013, o também egresso da Facom Amaro Baptista se juntou à sociedade, consolidando o que hoje é um estúdio de criação que une fotografia, design e comunicação.

Karolina Vargas e Polyana Matozinhos, em 2012; elas fundaram a Magenta Studio, espaço de criação com 16 anos de história na cidade. (Foto: Arquivo pessoal)

A origem da empresa está ligada à vivência universitária e Karolina conta que tudo começou com experiências que iam além da sala de aula. “Minha primeira experiência foi na Empresa Júnior, então de cara eu já vi um lado de trabalhar com empreendedorismo dentro da comunicação”. Foi também nesse período que ela se aproximou do design e começou a desenvolver projetos práticos, muitos deles ao lado de Baptista. Ao longo do curso, Karolina teve “aprendizados incríveis” como bolsista na Editora UFJF e no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm).

Com experiência em design e produção digital, Baptista ajudou a estruturar uma nova frente de atuação: os convites de formatura. A proposta era transformar o que tradicionalmente era um material padronizado em produções personalizadas. “A gente propunha não fazer convite de formatura em estúdio”, explica, destacando ensaios temáticos realizados em diferentes cenários da cidade e pensados de acordo com cada curso.

Karolina Vargas e Amaro Baptista se formaram na Faculdade de Comunicação da UFJF e hoje são sócios da Magenta Studio. (Foto: Arquivo pessoal)

Essa atuação aproximou ainda mais o estúdio da universidade. “A nossa ligação com a UFJF é muito forte”, conta Baptista. Ao longo dos anos, o Magenta atendeu turmas de diversas áreas, o que levou a equipe a circular por diferentes espaços acadêmicos. “A gente conheceu os laboratórios de engenharia, as clínicas de odontologia, os hospitais da medicina”, relembra.

Amaro se formou na UFJF em 2006; atualmente, ele e Karolina são casados e parceiros de trabalho à frente do Magenta. (Foto: Arquivo pessoal)

A formação em comunicação também segue presente no dia a dia do estúdio. “A gente lembra de diversas disciplinas e professores que tivemos”, diz Baptista, ao citar nomes como Eduardo Leão, Márcia Falabella, José Luiz Ribeiro e Marise Mendes. Segundo ele, ensinamentos aparentemente simples continuam sendo aplicados nas produções, desde as teorias de sala de aula até as experiências em laboratório.

Com o passar dos anos, o Magenta foi se adaptando às mudanças do mercado. Karolina destaca que a base conceitual aprendida na Universidade segue sendo um diferencial. “A gente aplica realmente a parte teórica da comunicação no nosso dia a dia”, afirma.

À esquerda, o primeiro estúdio do Magenta; à direita, o espaço atual, que atende às novas necessidades da empresa e do mercado. (Foto: Arquivo pessoal)

A pandemia marcou um ponto de virada para o estúdio, ao interromper eventos e alterar a dinâmica de trabalho. “O panorama dos convites de formatura mudou muito”, explica Karolina. A partir daí, o Magenta Studio passou por mudanças e ampliou sua atuação, investindo em fotografia de produto, retratos corporativos e produção de conteúdo. “A gente percebeu que tinha uma necessidade de orientação maior, de estratégia de comunicação”, destaca Karolina sobre a integração entre novas áreas da comunicação no modelo atual do estúdio.