A ClarIA utiliza dados e históricos de violência contra a mulher para impedir novos casos de feminicídio (Prefeitura de Recife)

Uma tecnologia baseada em inteligência artificial desenvolvida com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) começou a ser utilizada pela Secretaria de Saúde do Recife para fortalecer a identificação e o atendimento a mulheres em situação de violência na rede municipal de saúde. A nova ferramenta, chamada ClarIA, foi divulgada esta semana na cidade de Recife, em Pernambuco, e integra as ações do mês dedicado às mulheres e busca ampliar a capacidade de prevenção e acolhimento nos serviços da Atenção Básica.

Pesquisador Tiago Torrent é coordenador do FrameNet Brasil e responsável pelo desenvolvimento do aplicativo (Foto: Carolina de Paula/UFJF)

A ferramenta foi desenvolvida pelo laboratório FrameNet Brasil, sediado na UFJF, em parceria entre a Prefeitura do Recife e a organização internacional de saúde pública Vital Strategies. O sistema utiliza inteligência artificial para analisar informações registradas em prontuários eletrônicos e gerar alertas para médicos e enfermeiros quando há indícios de que uma paciente possa estar em situação de violência.

Durante o projeto, o recurso tecnológico analisou cerca de 162 mil prontuários médicos de aproximadamente 16 mil mulheres vítimas de violência atendidas na rede de saúde do Recife ao longo de dez anos. A análise combinou dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) com registros dos prontuários eletrônicos, incluindo informações escritas em campos abertos pelos profissionais de saúde.

Segundo o coordenador do projeto e pesquisador do FrameNet Brasil, Tiago Torrent, um dos diferenciais da tecnologia é a capacidade de interpretar textos livres dos prontuários, que costumam apresentar abreviações, erros de ortografia e formas variadas de relato.

“Os textos de prontuário são muito diferentes dos dados usados normalmente para treinar sistemas de inteligência artificial. Eles têm abreviações, erros de ortografia e estilos muito variados de escrita. Desenvolvemos um modelo capaz de interpretar esse tipo de texto e identificar padrões de relato de violência”, explica.

A partir dessa análise, o sistema consegue identificar sinais que antecedem a notificação formal de violência. “Conseguimos detectar indícios cerca de 90 dias antes da primeira notificação, aumentando significativamente as chances de que os profissionais consigam agir para proteger essas mulheres”, afirma o pesquisador.

Por que Recife?
De acordo com Torrent, a escolha de Recife para o desenvolvimento da iniciativa está diretamente relacionada à estrutura digital da rede de saúde da cidade. A capital pernambucana possui um histórico mais longo de utilização de prontuários eletrônicos na Atenção Básica, o que possibilitou a análise de um grande volume de dados. “Isso significa que existe um histórico consistente de registros que permite analisar padrões ao longo do tempo”, explica.

Segundo o professor, foram analisados milhares de registros produzidos entre 2016 e 2025, o que possibilitou observar como as mulheres vítimas de violência interagem com o sistema de saúde ao longo do tempo.

Lançamento da ferramenta Clara IA para o combate da violência contra a mulher (Foto: Prefeitura de Recife)

Identificação de padrões
A ClarIA utiliza análise semântica para transformar relatos escritos nos prontuários em informações estruturadas que podem ser interpretadas por sistemas computacionais. O método permite identificar padrões de relato de violência e compreender melhor como as vítimas interagem com o sistema de saúde.

Segundo Torrent, o modelo desenvolvido na UFJF é resultado de anos de pesquisa em linguística computacional. “A proposta do FrameNet Brasil é modelar como as pessoas compreendem o que está escrito. Esse tipo de abordagem permite interpretar textos reais, que são muitas vezes imprecisos, incompletos e cheios de variações linguísticas.”

Os dados analisados também revelaram padrões importantes sobre o comportamento das vítimas antes da notificação de violência. Em muitos casos, as mulheres já relatam conflitos e episódios de agressão durante consultas semanas ou meses antes de qualquer registro oficial. “Nós imaginávamos encontrar principalmente queixas inespecíficas, como dores ou mal-estar. Mas o que observamos é que muitas mulheres começam a relatar discussões, brigas e situações de violência durante as consultas muito antes de uma notificação formal”, explica o professor.

Outro resultado relevante foi a constatação de que a violência interfere diretamente no acompanhamento de outras condições de saúde. Nos prontuários das vítimas, doenças crônicas comuns na população brasileira, como hipertensão e diabetes, aparecem com menor frequência. “Isso não significa que essas doenças não existam. O que ocorre é que a violência passa a ocupar o espaço da consulta. A mulher procura o serviço de saúde para tratar dessa situação e outras condições acabam deixando de ser acompanhadas”, afirma o pesquisador.

Projeto-piloto e capacitação
Antes da expansão da estratégia na Atenção Básica, três Unidades de Saúde da Família do Distrito Sanitário I, em Recife, participaram do projeto-piloto: Santo Amaro III, Santa Terezinha e Pilar. Nessas unidades, 31 profissionais foram capacitados para utilizar a ferramenta e aprimorar o atendimento às vítimas.

Na próxima etapa, outras 21 unidades devem integrar a iniciativa, totalizando 497 profissionais habilitados para o cuidado às mulheres em situação de violência, entre médicos, enfermeiros, dentistas, agentes comunitários de saúde e equipes multiprofissionais.

Para Torrent, a iniciativa demonstra como a pesquisa acadêmica pode contribuir para políticas públicas e para o enfrentamento de problemas sociais complexos. “Quando conseguimos transformar aquilo que está escrito nos prontuários em informação analisável, abrimos a possibilidade de identificar padrões e orientar melhor as ações de saúde pública”, conclui.

IdPesquisa
Em breve, a Diretoria de Imagem publicará um novo episódio do IdPesquisa com a participação do professor Torrent. Na ocasião, ele apresenta o trabalho do FrameNet Brasil e explica a ferramenta baseada em inteligência artificial utilizada pela Secretaria de Saúde do Recife para auxiliar na identificação de possíveis casos de violência contra mulheres.