No último domingo, 1º de março, Fabíola encontrou a cão terapeuta Maria Flor, que levou leveza e alegria às crianças do abrigo do Bairro JK. (Foto: Arquivo pessoal)

As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora na última semana deixaram 8.584 pessoas fora de casa, entre desabrigadas e desalojadas, segundo informações da Prefeitura do município. Diante da dimensão da tragédia, estudantes, professores e técnicos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) se mobilizaram em uma grande força-tarefa que mobilizou diversas unidades, com ações desde atendimentos de saúde nos abrigos até a organização de voluntários e campanhas de doação. 

Hoje, o professor da Faculdade de Serviço Social da UFJF Alexandre Arbia é uma dessas pessoas: morador da Zona Sul, teve sua rua interditada. Mas até sexta-feira, 27, Arbia era um dos vários representantes da instituição que se mobilizaram nas ajudas emergenciais às vítimas da tragédia. No início, ele e outras professoras atuaram na administração do cadastro de voluntários dos abrigos e na amplificação da campanha do DCE e Apes para arrecadação de doações. Além dessa, conheça outras iniciativas da UFJF que têm feito a diferença nesse momento. 

“Propósito de ajudar, acolher e cuidar”

Fabíola Fortes: “Nosso compromisso é com as pessoas. E demonstramos, mais uma vez, que através da união podemos fazer a diferença” (Foto: Divulgação)

No dia 24 de fevereiro, Fabíola Fortes, professora da Faculdade de Enfermagem, recebeu uma ligação da diretora da unidade, Angélica Coelho, perguntando se ela poderia colaborar de alguma forma com as vítimas das chuvas. Para ambas, a resposta era clara: não poderiam se omitir.

Ainda naquele dia, começaram a mobilizar docentes e estudantes para atuar nas ações de apoio. Angélica entrou em contato com a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora e colocou a Faculdade de Enfermagem à disposição. Enquanto a diretora articulava outros professores, Fabíola organizava a participação dos estudantes.

Estruturaram uma planilha de atuação para as escolas municipais – que funcionavam, e ainda funcionam, como abrigos provisórios – e a adesão da comunidade acadêmica foi imediata. À medida que o trabalho ganhava dimensão, a diretora Angélica também articulava outros diretores da Universidade, juntamente com a Pró-Reitoria de Extensão (Proex). “Queríamos ampliar a rede de apoio para que pudéssemos servir melhor à população”, afirma Fabíola. 

As atividades nos abrigos começaram na quarta-feira, 25. As equipes desenvolveram ações de acolhimento, escuta sensível, apoio emocional e organização dos espaços, além de atendimentos de saúde, como administração de medicamentos, aferição de pressão arterial, curativos e verificação de glicemia capilar.

Está sendo um momento muito delicado para todos nós. Ainda assim, a Faculdade de Enfermagem se colocou na linha de frente e cumpriu seu propósito de ajudar, acolher e cuidar da forma que nos era possível”
Fabíola Fortes

Equipes voluntárias atuaram nos abrigos instalados nas escolas Dilermando Cruz, Gabriel Gonçalves, Paulo Rogério, Padre Frederico, Belmira Duarte, Amélia Pires, Raymundo Hargreaves e Murilo Mendes. “As demandas eram encaminhadas pela Secretaria Municipal de Saúde, que nos sinalizava onde havia maior necessidade, e nossas equipes se organizavam para estarem presentes”, explica a professora. A etapa emergencial da atuação da Enfermagem foi encerrada no domingo, 1º de março. Agora, a Prefeitura segue com autonomia e estrutura para dar continuidade aos trabalhos.

Pediatras em força-tarefa pela Atenção Primária

Cerca de 40 pediatras atuaram desde o início da tragédia (Foto: Arquivo pessoal)

A Faculdade de Medicina também esteve presente na etapa emergencial (mas não só) de atendimento às famílias desabrigadas de Juiz de Fora. Uma das frentes de trabalho foi junto à Atenção Primária de Saúde, dentro do Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI). Outro campo de atuação foi pelo SOS JF Pediatras, projeto coordenado pelas pediatras e professoras da UFJF Sandra Tibiriçá e Taís Rhodes, em parceria com a Prefeitura de Juiz de Fora, para atender crianças desabrigadas no município e também aquelas em situação de vulnerabilidade na atenção primária.

Cerca de 40 pediatras atuaram desde o início da tragédia. Os profissionais foram aos abrigos com seus próprios equipamentos, além de levarem medicações do Sistema Único de Saúde (SUS) e também as doadas pela população. Nos locais, montaram consultórios improvisados de pediatria para atender as crianças que precisavam de cuidados.

Segundo Tibiriçá, em alguns abrigos com menor número de crianças não foi necessária a atuação dos voluntários, pois as equipes da própria Atenção Primária já estavam presentes. “Mas na grande maioria dos abrigos com um número maior de crianças nós estivemos em todos e continuamos disponíveis. Inclusive, já retornamos a alguns locais onde atendemos anteriormente”, afirma.

A médica ressalta que o SOS JF Pediatras atua de forma integrada ao sistema público de saúde. Todos os atendimentos foram registrados em prontuários disponibilizados aos médicos de família e comunidade da rede de atenção primária, garantindo a continuidade dos tratamentos quando os voluntários não estão nos abrigos.

Mutirões

Para ampliar o atendimento no curto prazo, os voluntários do projeto também realizarão mutirões nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município. O primeiro está previsto para o próximo sábado, 7, na UBS do bairro São Pedro. A longo prazo, a continuidade das ações deverá ocorrer por meio de um projeto que está em fase de estruturação e será divulgado em breve.

Apoio na organização dos abrigos

Professor Alexandre Arbia contribuiu na fase das ações emergenciais. (Foto: Twin Alvarenga)

A Faculdade de Serviço Social também se mobilizou em diversos níveis de trabalho. Inicialmente, o professor Alexandre Arbia, citado no início desta matéria, e outras professoras como Estela Saléh, Sabrina Paiva, Nicole Oliveira, Ana Maria Ferreira e Jéssica Duboc atuaram na administração do cadastro de voluntários e na amplificação da campanha do DCE e Apes para arrecadação de doações.

Em seguida, começaram a trabalhar em conjunto com o gabinete de crise da Prefeitura, formado, entre outros órgãos, pela Secretaria de Educação e pela Secretaria de Assistência Social (SAS). Nessa etapa, receberam uma demanda de solicitação de voluntários assistentes sociais. “A Secretaria de Assistência Social conta com uma equipe técnica bastante competente, que já vinha atuando desde a primeira hora, mas o número de assistentes sociais era insuficiente para o potencial de pessoas desabrigadas que eles acolheriam”, afirma o professor.

Com a estruturação dos abrigos, tornou-se necessário ampliar o número de voluntários no atendimento, especialmente técnicos e assistentes sociais. Diante disso, foi iniciada uma terceira frente de trabalho. “Procuramos o Conselho Regional de Serviço Social para sensibilizar profissionais da região e organizamos o cadastro de assistentes sociais interessados em somar às equipes já existentes da Prefeitura”, explica o professor. Todo o trabalho relativo à organização foi entregue para a SAS e também servirá para a rede da Força de Proteção do Sistema Único de Assistência Social (Forsuas), do governo federal.

A partir desse processo, a Pró-Reitoria de Extensão (Proex) passou a centralizar as planilhas, formulários e instrumentos criados, permitindo que a Prefeitura siga agora “de forma mais tranquila a organização e administração desses cadastros”, completa Arbia.

Para além das ações emergenciais

Desde terça-feira, 24, professores da Faculdade de Educação (Faced) estiveram envolvidos individualmente e a partir da mobilização conduzida pela Proex, em diversas ações de apoio às vítimas das chuvas, como doações, transporte de donativos, limpeza de casas e vias públicas e atendimento a famílias nos abrigos.

Além dessas iniciativas emergenciais, a unidade também tem se dedicado à construção de projetos coletivos e institucionais voltados às demandas do município. A diretora da Faced, professora Angélica Cosenza, sistematizou duas frentes de trabalho, com ações previstas para o curto, médio e longo prazo, a serem negociadas com a Prefeitura de Juiz de Fora. Cada frente reúne três projetos: Psicologia, sociedade e educação e Crise climática, território e educação.

“As escolas tentaram se fazer lar. Fizeram festinhas para as crianças, proveram alegria, brincadeiras, acolhimento, espaço de escuta. A escola se fez um território de vida para essas pessoas em substituição aos seus lares, aos seus territórios. Seus sujeitos merecem muito ser reverenciados por tudo o que têm feito pelos atingidos”
Angélica Cosenza

Um dos projetos é proposto pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental (GEA), coordenado pela professora Angélica. Intitulado “Educação ambiental em busca de enfrentamentos à crise climática”, o grupo aposta no papel transformador da escola e propõe a formação de professores, nutricionistas e gestores de escolas públicas da cidade para compreender a crise climática, seus atores, causas e impactos socioambientais nos territórios.

As diferentes iniciativas apresentadas nas matérias “UFJF em Ação” mobilizam conhecimento e solidariedade da comunidade acadêmica e reforçam o compromisso cotidiano da Universidade com a sociedade, especialmente com a população de Juiz de Fora e região.

Outras informações:

Faculdade de Enfermagem

Faculdade de Medicina

Faculdade de Serviço Social 

Faculdade de Educação