Projeto atuou em cemitérios, IML e abrigos, oferecendo suporte emocional a atingidos e profissionais da linha de frente (Foto: Carolina de Paula)

O forte temporal que atingiu Juiz de Fora e região na última semana deixou um rastro de destruição e dezenas de mortos. Diversos bairros da cidade foram invadidos pela água e pela lama, deixando mais de 8,5 mil pessoas desabrigadas, segundo as últimas atualizações da Defesa Civil. Casas foram destruídas, histórias interrompidas e famílias foram desfeitas. 

Em meio ao luto coletivo, uma rede de apoio começou a se formar. Por meio do Projeto Enlutar do Departamento de Psicologia em parceria com o Hospital Universitário (HU) da UFJF, famílias foram acolhidas e trabalhadores que atuam na linha de frente receberam suporte psicológico diante do impacto emocional provocado pela tragédia. 

O projeto já esteve presente no Instituto Médico Legal (IML), no Cemitério Municipal, em abrigos e em outras frentes de atendimento, oferecendo suporte psicológico baseado nos chamados “Primeiros Cuidados Psicológicos” (intervenção aplicada em contextos de emergências e desastres). Mais de 30 famílias foram atendidas diretamente pelo projeto e outras 80 pessoas para além destas famílias que perderam seus entes queridos.

Cuidado desde o primeiro dia

O Enlutar é coordenado pela professora do curso de Psicologia da UFJF e pró-reitora adjunta de Assistência Estudantil (Proae), Fabiane Rossi. O projeto de extensão da UFJF é composto por psicólogos colaboradores, residentes do Hospital Universitário e estudantes do curso de Psicologia. De acordo com a coordenadora, o Enlutar mobilizou psicólogas, equipes do Ambulatório de Luto e do Enlutinho, vinculado ao HU da UFJF. 

As ações foram realizadas em alinhamento com órgãos oficiais, como a Força Nacional do SUS, a Cruz Vermelha e o Conselho Regional de Psicologia. A atuação envolveu tanto adultos quanto crianças afetadas direta ou indiretamente pelas chuvas.

“O projeto já realizou ações de suporte a profissionais atuantes em cenários similares, como na região serrana do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além de suporte a enlutados pela Covid-19. Este tem sido um novo desafio para nossa equipe, pois em todas essas realidades vive-se um luto coletivo, que tem particularidades e por isso demanda um suporte especializado”, diz Fabiane.

Cuidar de quem cuida

Enlutar realizou a uma atividade de capacitação e suporte em saúde mental para os profissionais que atuaram no desastre (Foto: Divulgação)

Nesta semana, o Enlutar realizou a uma atividade de capacitação e suporte em saúde mental para os profissionais que atuaram no desastre em Juiz de Fora. Cerca de 30 pessoas, entre trabalhadores do Cemitério Municipal, IML, Hospital de Pronto Socorro (HPS), profissionais da saúde, assistência social e voluntários, participaram da ação. A atividade foi conduzida pela professora Fabiane Rossi e pela psicóloga e tenente-coronel do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, Eliane Cristina Bezerra de Lima. 

A capacitação abordou o luto das famílias afetadas, mas principalmente o luto vivido por quem atua diretamente nas frentes de atendimento. Também foram discutidos os desafios da comunicação de más notícias e o manejo emocional em cenários de mortes em larga escala.

“Em geral as ações são direcionadas às pessoas afetadas pelas chuvas, mas é de suma importância que as pessoas que atuam nestas frentes tenham um momento de acolhimento, escuta e suporte para que possam dar continuidade às suas atividades”, destaca a professora.

A dor de quem sepulta e também perde

Entre os trabalhadores que participaram da capacitação está o servente do Cemitério Municipal, Gabriel David. Ele viveu a tragédia em dois momentos: como morador afetado pela enchente e como profissional responsável por acompanhar os sepultamentos das vítimas.

Morador do bairro de Lourdes, Gabriel teve a casa invadida pela água no dia em que completava um ano morando com a esposa. “Era para ser uma data de celebração, mas virou um dia de medo, desespero e lágrimas. Eu nunca tinha visto o rio subir tanto. A água veio com uma força assustadora.”

Apesar de o imóvel não ter sido estruturalmente comprometido pelas chuvas, Gabriel e a esposa foram morar na casa de parentes. Ele relata que a companheira está com medo de voltar para a residência. “A gente teve perda material, mas a minha esposa está com muito medo de voltar. Foi um trauma muito grande para ela. A gente nunca viu uma chuva que causou tantos estragos.”

Gabriel acompanhou todos os sepultamentos, especialmente das vítimas do bairro Parque Burnier, local onde houve o maior número de mortes. “Muitas pessoas eu conhecia de vista. Era vida acontecendo ali. De repente, virou silêncio e dor.”

Em um dos enterros, Gabriel conta o caso de um homem que, poucos dias após sepultar a esposa, retornou para enterrar a irmã, a cunhada e o sobrinho. “Não existe preparo emocional para presenciar algo assim.”

Mesmo exercendo sua função, o servente se tornou apoio emocional para as famílias e colegas de trabalho. “Eu precisava manter todos firmes. Precisava garantir dignidade em cada despedida. Mas, por dentro, eu estava quebrado.”

Gabriel: “Não existe preparo emocional para presenciar algo assim.” (Foto: Carolina de Paula)

“Alguém estava cuidando de quem cuida”

Com a chegada da equipe do projeto Enlutar ao cemitério, Gabriel diz que sentiu uma mudança no ambiente. De acordo com ele, o projeto não acolheu apenas as famílias, mas também aos profissionais que estavam trabalhando e isso fez toda a diferença. Apesar das tentativas de se manter forte o tempo todo para as famílias, colegas e para a própria esposa, ele não tinha espaço para viver o próprio luto.

“Ter alguém preparado para ouvir, acolher e orientar fez toda a diferença. Foi como se alguém finalmente olhasse para nós, trabalhadores. Eles não enxergaram apenas profissionais cumprindo uma função, mas seres humanos que também estavam sofrendo.”

Para ele, o projeto significou alívio. “Me ajudou a organizar meus sentimentos, a reconhecer minha dor e a continuar firme, mas de uma forma mais leve. Em meio a tanta tristeza, o Enlutar trouxe humanidade, acolhimento e esperança.”

Atenção aos sinais

A psicóloga colaboradora do projeto, Débora Andrade Caetano, destaca a importância de uma escuta qualificada para que as pessoas possam vivenciar a dor da perda com suporte e segurança, sem invalidação de emoções. Segundo ela, é fundamental observar sinais físicos, comportamentais, cognitivos e emocionais após situações traumáticas. 

“O luto passa a ser coletivo. Os atendimentos são emocionalmente densos e podem mobilizar todas as equipes, de IML, cemitério e profissionais de saúde e assistência social que estejam no cuidado, até mesmo os profissionais jornalistas podem se afetar. O próprio relato das histórias das pessoas é marcado pela dor e pode causar efeitos em quem ouve, sendo importante o cuidado de todos envolvidos nos cuidados dos atingidos.” 

Ela ainda explica sobre os sinais que indicam que é importante buscar ajuda especializada após uma tragédia. “Observe se a pessoa apresenta dores, zumbidos, ou queixas que não apresentava antes ou sinais como alteração do sono, falta ou excesso de apetite, sustos e sobressaltos frequentes, que não diminuem com o tempo. É importante avaliar se a pessoa passa a ter pesadelos que retomam os momentos ruins e se repetem com frequência ou a sensação frequente de que está acontecendo o mesmo ocorrido novamente.” 

Outros sintomas como isolamento social, evitação da rotina, recusa de retornar para as atividades de vida diária, perda ou diminuição do autocuidado, uso ou abuso de álcool e/ou outras drogas, ou pensamentos como culpa, irritabilidade intensa ou desejo de que a própria vida acabe também exigem atenção imediata.

“A presença de alguns desses sintomas já é suficiente para que a pessoa busque ajuda. É urgente quando há risco à própria vida.”

Ela ressalta, ainda, que sentimentos como tristeza profunda, sensação de vazio e perda fazem parte do processo de luto. “Essas emoções são naturais, mas devem ser acompanhadas por especialistas caso estejam prejudicando a saúde e as atividades da pessoa.”

Os interessados em receber orientação ou acompanhar as ações do projeto podem entrar em contato com o Enlutar por meio das redes sociais oficiais, pelo perfil @projetoenlutar.

Projeto Acolhe e Enlutar promovem ação de atenção à vida para bolsistas do Pibid

Os projetos Acolhe e Enlutar realizam, nos dias 5 e 6 de março, a atividade “Desastre ambiental em Juiz de Fora e Região: vamos falar sobre isso?”, com o objetivo de criar um espaço de escuta, cuidado e orientação para bolsistas e supervisores(as) do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), diante dos impactos emocionais provocados pela tragédia.

A ação acontece na Sala Paulo Freire, na Faculdade de Educação da UFJF, em dois horários: das 9h às 11h e das 14h às 16h. As inscrições devem ser feitas por meio de formulário on-line neste link.

Outras informações: 

Projeto Enlutar
Projeto Acolhe