As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora nesta semana já entram para a história como um dos eventos mais extremos já registrados no município. A estação meteorológica automática instalada na Universidade Federal de Juiz de Fora contabilizou mais de 750 milímetros de precipitação — número muito acima da média histórica para o mês, que é de 170 mm.
O volume extraordinário provocou deslizamentos de terra, desabamentos de casas, mais de 4 mil desabrigados e desalojados e mais de 58 mortes confirmadas até esta sexta-feira, 27.
Segundo especialistas da UFJF, a magnitude do evento é resultado da combinação de fatores atmosféricos, oceânicos, geográficos e urbanos, além de possíveis influências das mudanças climáticas.
Por que choveu tanto?

Professora Cassia Castro explica os diversos fatores climáticos que contribuíram para o volume de chuvas
De acordo com a coordenadora da estação meteorológica da UFJF, Cássia Castro, o episódio foi provocado pela atuação de uma frente fria estacionária combinada com a convergência de umidade proveniente da Amazônia. “A frente fria aumenta a instabilidade atmosférica e, ao interagir com a umidade transportada da Amazônia, favorece a formação de nuvens muito carregadas”, explica.
O calor típico do verão intensifica ainda mais o processo, gerando convecção — movimento ascendente do ar quente e úmido — e contribuindo para precipitações volumosas em curto espaço de tempo.
De acordo com Cássia, o relevo da Zona da Mata Mineira também desempenha papel importante. Ao encontrar morros e encostas, o ar úmido é forçado a subir, o que intensifica a condensação e aumenta a probabilidade de chuva intensa.
Outro fator relevante são as condições do Oceano Atlântico, que apresenta temperaturas acima da média. Águas mais aquecidas favorecem maior evaporação e, consequentemente, mais umidade disponível na atmosfera sendo transportada para o interior da região Sudeste.
Volume supera todos os registros desde 1972
O acumulado de 749 mm até o dia 25 de fevereiro supera qualquer registro da meteorologia da Universidade, desde 1972. Segundo a docente, até então o evento mais próximo havia ocorrido em 1985, mas já foi ultrapassado neste mês.
Ela destaca ainda que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta o aumento na frequência e intensidade de eventos extremos como uma das consequências do aquecimento global. “Podemos, sim, ter esses eventos ocorrendo em intervalos menores de tempo”, afirma.
A meteorologista também chama atenção para a irregularidade recente no regime de chuvas: novembro, dezembro de 2025 e janeiro de 2026 foram meses atipicamente secos, seguidos por um fevereiro extremamente chuvoso. “Essa desordem está relacionada à dinâmica atmosférica em escala regional e global e reflete nos climas locais.”
Enxurradas, alagamentos e inundações: entenda as diferenças

Mesmo com o controle exercido pela barragem de Chapéu D’Uvas, o volume excepcional das chuvas levou ao transbordamento do rio Paraibuna após muitos anos (Foto: Tania Rêgo/Agência Brasil)
O professor do Departamento de Geociências do Instituto de Ciências Humanas da UFJF, Miguel Felippe, explica que é importante diferenciar três fenômenos associados às chuvas intensas: enxurradas, alagamentos e inundações.
As enxurradas ocorrem quando grande volume de água escoa rapidamente por áreas inclinadas. Em uma cidade marcada por morros, como Juiz de Fora, a água ganha velocidade e pode provocar danos estruturais e riscos à vida.
As inundações, por sua vez, estão relacionadas ao transbordamento dos rios. No caso da cidade mineira, todos os cursos d’água do município drenam para o Rio Paraibuna, principal artéria fluvial da cidade. Mesmo com o controle exercido pela barragem de Chapéu D’Uvas, o volume excepcional das chuvas levou ao transbordamento do rio após muitos anos.
Já os alagamentos resultam principalmente da incapacidade de drenagem urbana. A impermeabilização do solo — causada por asfaltamento, construções e ausência de áreas verdes — impede a infiltração da água, que se acumula nas partes mais baixas.
De acordo com o docente, estes fenômenos são distintos, mas que podem ocorrer simultaneamente. “A impermeabilização generalizada faz com que a água escoe muito rápido para as partes mais baixas. Quando chega ali, não tem para onde ir. Isso gera alagamentos e, ao mesmo tempo, contribui para que os rios recebam um volume excessivo em pouco tempo”, explica o professor.
Uso do solo e desigualdade ampliam impactos
Além do volume de chuva, a forma como a cidade é ocupada influencia diretamente a gravidade dos danos. Um milímetro de chuva equivale a um litro de água por metro quadrado. Quando se multiplicam centenas de milímetros por toda a área urbana, o resultado é um volume gigantesco de água escoando pela cidade.
Regiões com maior impermeabilização, drenagem deficitária ou ocupação em encostas apresentam maior suscetibilidade a enxurradas e deslizamentos.

Deslizamentos foram registrados por toda cidade, mas segregação socioespacial impacta mais vulneráveis (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
Para o professor titular da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora, doutor em Geotecnia, Márcio Marangon, a explicação para os alagamentos e desmoronamentos em Juiz de Fora não está apenas no tipo de solo, mas na combinação de três fatores: características topográficas da área urbana, ocupação histórica de áreas inadequadas para habitação — muitas delas naturalmente áreas de proteção ambiental — e condições climáticas muito atípicas em relação às vividas na região por várias décadas.

Professor Márcio Marangon aponta três fatores para o desastre registrado: características topográficas da área urbana, ocupação histórica de áreas inadequadas para habitação e condições climáticas atípicas
Segundo ele, a expansão urbana ao longo dos anos ocorreu de forma descontrolada, o que ampliou a exposição ao risco. “Áreas de acentuado declive ficaram mais suscetíveis a escorregamentos de terra, assim como áreas ocupadas em baixadas muitas vezes dificultam o escoamento adequado das águas das chuvas.”
Marangon também explica por que determinados bairros registraram enxurradas com grande intensidade. “O sistema de drenagem pluvial já não comporta com segurança o volume de águas gerado pela impermeabilização verificada com o crescimento da cidade, frente aos volumes de chuva registrados neste ano, de forma atípica”, afirma.
Na mesma linha, Felippe também ressalta que o risco não atinge a população de forma igual. Apesar do impacto sentido em partes da cidade consideradas de classe média, ainda existe uma segregação socioespacial. “A população mais vulnerável sofre muito mais quando o fenômeno acontece”, pontua. Segundo o professor, a vulnerabilidade social transforma eventos naturais em desastres. “Quem tem menos condições de se deslocar ou reconstruir sua vida sofre impactos muito maiores.”
Embora Juiz de Fora possua mapeamento de risco e um sistema de alerta considerado estruturado, o docente avalia que é necessário aprimorar a comunicação e a organização prévia para que a população saiba como agir quando os avisos são emitidos.
Medidas estruturais e não estruturais
Para a redução de riscos de desastres, o professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da Faculdade de Engenharia da UFJF, Jordan de Souza, reforça que é preciso integrar medidas estruturais e não estruturais. “As campanhas preventivas, o sistema de alerta e a atuação da Defesa Civil são tão importantes quanto obras físicas”, pontua.

Para o professor Jordan Souza, especialista em cidades resilientes, chama a atenção a necessidade de medidas como a realocação habitacional em áreas classificadas como de alto risco
No campo das intervenções estruturais, ele destaca a drenagem como elemento central. “A parte geológica está muito relacionada à quantidade de água que infiltra nas encostas. A drenagem é tão importante quanto o muro de contenção. Se não houver drenagem adequada, a água se acumula e a estrutura pode ruir.”
Segundo Souza, o volume de chuva registrado nesta semana superou a capacidade de muitas estruturas existentes. Ele observa que boa parte dos sistemas de drenagem urbana não foi dimensionada para suportar precipitações tão intensas e concentradas em curto intervalo de tempo. Como consequência, aumentam os registros de deslizamentos, enxurradas e alagamentos.
O professor também chama atenção para a necessidade de medidas como a realocação habitacional em áreas classificadas como de alto risco. “Há locais onde tecnicamente não é recomendada a permanência de moradias. Em alguns casos, é mais viável construir em outro lugar do que tentar conter a encosta”, afirma.
Ao analisar o cenário atual, Souza destaca ainda o histórico de ocupação urbana da cidade. “Se tivéssemos observado o Código Florestal desde a década de 1970, respeitando distâncias de cursos d’água e evitando ocupações em áreas com declividade superior a 45 graus, grande parte dos problemas poderia ter sido evitada”, avalia.
Outro fator apontado pelo docente é o avanço da impermeabilização do solo. “Existe a cultura do asfalto. Áreas que antes permitiam infiltração passaram a escoar superficialmente grandes volumes de água. Isso contribui para enxurradas e alagamentos”, explica.
Petrópolis e Juiz de Fora: semelhanças e diferenças
O que acontece em Juiz de Fora não é um fenômeno isolado. Todos os anos, a imprensa noticia alagamentos e tragédias provocadas por chuvas intensas em diferentes regiões do país. Um dos casos mais emblemáticos é o de Petrópolis, município localizado a cerca de 133 quilômetros da cidade mineira e frequentemente associado a deslizamentos de grande proporção. Mas, afinal, é possível comparar as duas realidades?
Para o professor Felippe, qualquer comparação precisa ser feita com cautela. “Eu acho que essas comparações são muito perigosas, porque a gente acaba colocando às vezes o sofrimento de determinadas pessoas e famílias com pesos diferentes por causa dos números que os desastres acabam gerando”, pontua.

De acordo com o professor Miguel Felippe, é difícil comparar as tragédias de Juiz de Fora e Petrópolis, já que apesar da proximidade entre as cidades, as condições dos locais são diferentes
Segundo ele, embora as cidades estejam relativamente próximas, a recorrência e a intensidade dos desastres em Petrópolis são historicamente maiores. “Juiz de Fora nunca teve registro histórico de uma situação tão dramática quanto essa, apesar de episódios pontuais ao longo do tempo”, afirma. O professor destaca que as características físicas e climáticas dos dois municípios são distintas.
“Petrópolis sofre mais com tempestades associadas a sistemas que vêm do litoral e com chuvas orográficas mais intensas e frequentes. Em Juiz de Fora, atuam outros tipos de sistemas atmosféricos”, explica.
A predisposição do terreno também diferencia os cenários. De acordo com Souza, Juiz de Fora possui áreas suscetíveis a escorregamentos e outras mais vulneráveis a inundações, especialmente nas regiões mais baixas. Em Petrópolis, por outro lado, uma parcela significativamente maior do território está situada em zonas classificadas como de alto risco.
Embora Juiz de Fora tenha população superior — o que influencia os números absolutos de moradores expostos —, a suscetibilidade física do terreno de Petrópolis para escorregamentos e quedas de blocos rochosos é mais acentuada.
Outro fator que agrava os impactos na cidade fluminense é a dinâmica entre encostas e cursos d’água. “Em Petrópolis, o material que desliza nas vertentes chega muito rapidamente aos cursos d’água menores, que drenam para o Rio Piabanha. Isso provoca inundações abruptas. A relação entre movimento de massa e inundação lá é mais dramática”, ressalta o professor da Faculdade de Engenharia.
Para o professor, essa combinação de fatores — clima, relevo, ocupação urbana e dinâmica hídrica — ajuda a explicar por que Petrópolis enfrenta recorrência maior desses fenômenos em comparação com Juiz de Fora, ainda que ambas as cidades compartilhem desafios relacionados ao planejamento urbano e à prevenção de desastres.
Prevenção e políticas públicas
Para os especialistas, os eventos naturais continuarão ocorrendo. O desafio é reduzir perdas humanas e materiais. Souza reforça que a prevenção envolve medidas estruturais — como drenagem adequada de encostas, muros de contenção e realocação de moradias em áreas de alto risco — e medidas não estruturais, como sistemas de alerta e educação comunitária.
Felippe destaca que a prevenção precisa ser territorializada. “Não é apenas informar. É organizar planos de evacuação, entender quem está em cada área e quais são suas condições de resposta.”
O consenso entre os professores é que evitar completamente esses fenômenos é impossível. O foco deve ser impedir que eventos naturais se transformem em tragédias humanas.

