
Em fevereiro de 2025, Nara Andrade foi reconhecida por sua trajetória e dedicação à ciência pela International Neuropsychological Society (INS), uma das sociedades científicas de maior relevância mundial no campo da neuropsicologia (Foto: arquivo pessoal)
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a relação entre infância saudável e pobreza é multidimensional, indo além da falta de dinheiro. Isso significa que o pleno desenvolvimento físico, mental e emocional de uma criança, especialmente até os seis anos de idade, perpassa mais pelo ambiente em que essa criança vive do que pela renda mensal de sua família.
Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPG-Psi) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Nara Andrade é a 23ª convidada do programa IdPesquisa. Neste episódio, já disponível no YouTube e Spotify, Nara fala das multidimensões dessa relação e de como as pesquisas do laboratório que coordena trabalham em prol do tripé – acolhimento, estabilidade e enriquecimento ambiental – que sustenta a infância saudável.
Neurociência cognitiva e afetiva
No começo da conversa, Nara explica a maior inquietação do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa em Neurodesenvolvimento Humano (Linha) que coordena: “Que infâncias são essas que estamos promovendo?”. Os estudos abrigados pelo Linha se voltam a conhecer as infâncias para promover experiências equitativas, diversas e plurais. Segundo a pesquisadora, as histórias de vida de um sujeito fazem a chamada ‘neuroplasticidade’, que é a capacidade do cérebro de se modificar a partir do que é vivido. Por isso o objetivo de não só conhecer, mas também modificar (no diálogo com a sociedade) o tripé da infância saudável.

Linha tem como inquietação: “Que infâncias são essas que estamos promovendo?” (Imagem: Felipe Fernandes)
Para o estudo da infância de maneira integral e complexa, afirma a pesquisadora, não se pode negligenciar dois grandes eixos de cuidado: a escola e a família. Incluindo, nesse último, os processos de parentalidade, que é o conjunto de práticas, atitudes e vínculos afetivos que adultos têm ao cuidar de crianças de sua responsabilidade. “Se a gente olha para as formas de realizar a parentalidade, a gente vai propor programas de intervenção. E é nisso que surge uma das parcerias que o Linha tem com a Universidade Harvard, que é com o professor Christopher Willard, que se dedica ao que a gente chama de mindfulness para crianças e adolescentes”, orgulha-se Nara.
Em português, o termo se refere à atenção plena, que é a capacidade de estar atento ao momento presente, com abertura e sem julgamento. A atenção plena se dá na prática ou no traço de personalidade de um indivíduo, sendo, a prática, a aplicação dessa definição e, o traço, a predisposição intrínseca de aplicação desses princípios de monitoramento e não-julgamento. Para além do estado de vibrações positivas comumente difundido na internet, a ciência do mindfulness está ligada à saúde e bem-estar da população.

Doutoranda Clara Effgen Ladeira cria protocolo de intervenção com atenção plena em parentalidade, com destaque para cuidadores de crianças atípicas (Imagem: Felipe Fernandes)
Produção de conhecimento
Clara Effgen Ladeira é pesquisadora do Linha e estuda traços de atenção plena desde o mestrado, quando se dedicou ao público infantojuvenil. Agora, no doutorado, cria um protocolo de intervenção com atenção plena em parentalidade, com destaque para cuidadores de crianças atípicas. “A pesquisa em atenção plena está ligada à saúde e bem-estar da população. Quando associada a estudos de parentalidade, ela prediz desfechos positivos em saúde mental – tanto para cuidadores quanto para crianças e adolescentes –, atuando na redução de fatores de risco/estressores e ampliando fatores de proteção em saúde”, explica Clara.
Clarissa Delgado Fonseca é mestranda no PPG em Psicologia e no Linha também realiza pesquisa voltada para a saúde mental de cuidadores. O objetivo principal do estudo é compreender os diferentes contextos de cuidado da primeira infância (até os seis anos de idade) no Brasil, observando como fatores como configuração familiar, gênero e deficiência se relacionam com a saúde mental de cuidadoras e cuidadores.
Muitos estudos na área olham para a parentalidade considerando apenas famílias nucleares tradicionais (homem, mulher e filhos), explica Clarissa, deixando “muita gente de fora”. Isso invisibiliza famílias trans, homoafetivas, monoparentais e multigeracionais (que incluem parentes de outras gerações). Esses fatores, segundo a aluna, influenciam diretamente a forma como o cuidado é vivido no dia a dia.

“Como mãe, me interessei por essa área por vivenciar na pele a alta demanda de cuidados dessa fase da vida, que envolve não só tarefas práticas, mas também um grande investimento emocional”, afirma Clarissa Delgado Fonseca, de 31 anos, integrante do Linha (Imagem: Felipe Fernandes)
“Ao compreender como gênero, deficiência e contexto social atravessam o cuidado, o estudo busca contribuir para uma sociedade mais justa e atenta às diferentes realidades familiares. Muitas vezes, na atenção à primeira infância, o foco está quase exclusivamente na criança, enquanto o bem-estar de quem cuida permanece invisível. Só que não existe cuidado com a primeira infância sem considerar o contexto. Quando faltam apoio, políticas e condições dignas para quem cuida, o cuidado não se sustenta”, avalia.
Programas de intervenção
Além das parcerias dentro do campo da produção de conhecimento, o Linha também atua nos territórios. Suas pesquisas e projetos visam traçar estratégias baseadas em evidências para fundamentar políticas públicas escalonáveis – aquelas que podem ser reproduzidas e multiplicadas para maior abrangência geográfica e número de pessoas impactadas.
Um desses projetos é o Nina, serviço de atenção secundária à saúde a crianças de quatro a 12 anos em processo de avaliação neuropsicológica, com ênfase em crianças com transtornos de neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Com intervenção baseada em jogos, o Nina trabalha os campos das habilidades socioemocionais e da cognição matemática.

Ana Helena Gama trabalha com jogos e crianças autistas: “a intervenção com jogos é cientificamente comprovada, baseada em evidências robustas, e configura uma ferramenta muito válida no tratamento de crianças com TEA”, afirma (Imagem: Felipe Fernandes)
Desde 2022, Ana Helena Gama é integrante do Linha e participa dos treinamentos com materiais, leituras e preparações dos instrumentos; das atividades de recepção das crianças e suas famílias; da aplicação dos testes neuropsicológicos; e das intervenções baseadas nesses jogos de evidência.
De acordo com Ana, os serviços prestados pelo Linha são importantes para o tratamento de crianças autistas, principalmente no que se refere à avaliação neuropsicológica, que é quando os déficits e potencialidades das crianças ficam mais nítidos e as intervenções terapêuticas podem ser feitas de forma mais assertiva. “Os tratamentos para a população com TEA tendem a ser, em sua maioria, de alto custo, e o Linha traz essa proposta de conduzir um projeto social que potencializa o desenvolvimento dessas crianças, com foco na melhora da qualidade de vida delas e de seus familiares de forma gratuita”, esclarece.
O projeto “CuriosaMente – brincar com intencionalidade, aprender com equidade” é outra frente de atuação do Linha dentro dos territórios. Nele são desenvolvidos jogos de baixo custo baseado em neurociência do desenvolvimento. Jogos para reduzir o impacto da adversidade sobre o neurodesenvolvimento na Educação Infantil. Em escolas e contextos educacionais, a iniciativa transforma jogos e brincadeiras em experiências planejadas que favoreçam o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças e protagonizem os professores.

Projeto Curiosamente desenvolve jogos de baixo custo baseado em neurociência do desenvolvimento (Imagem: Felipe Fernandes)
O CuriosaMente é parte de uma rede institucional que une UFSC, USP, Unilab, UFBA, Harvard University e J-PAL/MIT, além de diferentes níveis de gestão pública e equipe técnica, com representantes das secretarias municipais de educação, direções escolares, coordenações pedagógicas, docentes e pesquisadores. O projeto avalia os efeitos das intervenções do Linha para transformar em políticas públicas em educação e saúde.
Confira a entrevista da professora em formato podcast, no Spotify.
