Isabella Freitas (no centro) com os membros da banca de doutorado. (Foto: Arquivo Pessoal)

Isabella Mendes de Freitas, egressa do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPGCSO/UFJF), conquistou o 1° lugar no Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular. O trabalho premiado “Encontros entre fé, arte e patrimônio no ‘museu de sítio’ de Congonhas (MG)”, baseado em sua tese, analisa como o Museu de Congonhas atua como mediador entre fé, arte e políticas de patrimônio, revelando disputas simbólicas e tensões na construção da cidade patrimonializada.

Orientada pelo professor Luzimar Paulo Pereira, do Instituto de Ciências Humanas (ICH), a tese foi defendida em 2024 no âmbito do PPGCSO. O trabalho resultante da tese, recebeu o primeiro lugar na edição 2025 do concurso, promovido pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

O Museu de Congonhas é considerado o 1º museu a valorizar a relação homem-território, a experiência do território e a história local, mostrando processos naturais e culturais, não apenas objetos isolados. (Foto: Divulgação)

O Museu de Congonhas é um lugar híbrido, onde a gente não consegue mais separar totalmente o que é sagrado do que é museológico. Isabella Freitas

O Museu no centro da pesquisa

No estudo, Isabella investiga o Museu de Congonhas, localizado em Congonhas (MG), considerado o primeiro museu de sítio do Brasil e instalado no entorno do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Segundo a autora, a principal motivação do estudo foi compreender como o museu funciona como um espaço de mediação entre a devoção religiosa, a valorização artística e a experiência turística dos visitantes. “Eu queria entender como o museu transforma a fé e a devoção que existem ali há séculos em uma experiência de turismo e de contemplação artística”, explica.

Para Isabella Mendes a premiação reforça a relevância do debate sobre museus de sítio, patrimônio e cultura popular. (Foto: Twin Alvarenga)

A análise parte de uma etnografia guiada por visitas ao museu e pela observação de suas salas, eixos curatoriais e objetos expográficos. Ao longo do trabalho, a pesquisadora utiliza conceitos como “colecionamento”, “artificação” e “hibridação” para compreender como objetos religiosos, como os ex-votos (ofertas de promessas), são incorporados à narrativa museológica e ressignificados no espaço expositivo, passando a ser interpretados também como obras de arte.

A partir desse olhar, Isabella aponta que o Museu de Congonhas se constitui como um espaço marcado pela sobreposição de sentidos. “O Museu de Congonhas é um lugar híbrido, onde a gente não consegue mais separar totalmente o que é sagrado do que é museológico. Ele revela que a relação entre fé, arte e patrimônio não é linear; elas se misturam e criam novos significados que às vezes se reforçam e às vezes entram em conflito”, afirma.

Ao ampliar a análise para além do espaço expositivo, a pesquisa também identifica tensões e disputas simbólicas na relação entre o museu e a cidade de Congonhas. Segundo Isabella, enquanto a Instituição constrói uma narrativa voltada para a preservação patrimonial e a história da arte, moradores e romeiros nem sempre se reconhecem nessa leitura. “Enquanto o Museu foca na história da arte e na conservação técnica, os moradores muitas vezes sentem que a sua relação afetiva e religiosa com o santuário fica em segundo plano”, observa. Com isso, a tese demonstra que o processo de patrimonialização pode gerar distanciamentos e redefinir o lugar dos sujeitos locais na experiência do patrimônio.

Contribuições para o debate sobre patrimônio no Brasil

O reconhecimento por meio do Concurso Sílvio Romero marca um momento importante na trajetória acadêmica da pesquisadora. Para ela, a premiação reforça a relevância do debate sobre museus de sítio, patrimônio e cultura popular no cenário nacional. “Ver uma tese sobre um museu de sítio ganhar esse espaço mostra que estamos avançando na forma de entender o folclore e o patrimônio”, destaca.
Na avaliação da autora, o prêmio também contribui para descentralizar as discussões sobre museus no Brasil, frequentemente concentradas nas grandes capitais. A pesquisa chama atenção para a importância de políticas de preservação que considerem as comunidades locais e as relações sociais construídas em torno do patrimônio. “Preservar o patrimônio não é apenas cuidar da pedra e do cal, mas sim cuidar das relações humanas e dos sentidos que as pessoas dão a esses lugares”, afirma.

Reconhecimento institucional

Para o orientador da tese, professor Luzimar Paulo Pereira, o trabalho se destaca pela articulação entre antropologia, pensamento social e história. Segundo Pereira, a pesquisa propõe uma abordagem sensível e rigorosa ao tratar Congonhas como uma “cidade-patrimônio”, evidenciando a complexidade dos processos sociais envolvidos. “A tese tem passagens muito bonitas, o que torna a leitura, além de instigante, muito prazerosa. Nem só de ideias vive a ciência. É preciso um pouco de beleza também”, afirma.

O professor ressalta ainda que a premiação reforça a visibilidade do PPGCSO e da UFJF no debate nacional sobre patrimônio cultural, museus e cultura popular. “A universidade pública é o lugar onde essa conversa pode ir mais longe, pela liberdade acadêmica e pelo apoio institucional que permitem pesquisas desse tipo”, conclui.

Confira a Tese na íntegra:

Repositório Institucional da UFJF