Após dias de trabalho intenso e imersão em comunidades carentes, os estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) que participaram da mais recente edição do Projeto Rondon retornaram à Instituição com muitas histórias para contar. Além de levarem conhecimento acadêmico, os alunos trouxeram consigo novas perspectivas sobre trabalho comunitário e desenvolvimento social, reforçando a importância da troca entre Universidade e sociedade.

Alunos dos campi de Juiz de Fora e de Governador Valadares participaram das atividades do Projeto entre 16 de janeiro e 1º de fevereiro (Fotos: Projeto Rondon)
No caso da UFJF, as atividades ocorreram no Sul de Minas, nos municípios de Marmelópolis, Lambari e São Sebastião da Bela Vista. Ao todo, o projeto reúne 24 instituições de Ensino Superior (Ifes), de nove estados e do Distrito Federal. As missões, compostas por alunos voluntários e professores, ocorreram no período de 16 de janeiro a 1º de fevereiro. Foram oferecidas às populações dos municípios atividades de extensão, como oficinas e capacitações.
Impacto
Entre os envolvidos estão as estudantes Ana Beatriz Borges, Nathália Martins, Lara Castor e Mariana Lazzarini, do curso de Odontologia da UFJF. Elas participaram das ações em São Sebastião da Bela Vista, município com sete mil habitantes. Os trabalhos foram coordenados pela professora Roberta Passos do Espírito Santo, do Departamento de Clínica Odontológica da UFJF. Ao longo dos 17 dias de atividades, foram realizadas palestras em escolas públicas e ações educativas odontológicas, além de atendimento para a população em geral.
Ao chegarem em Sebastião de Minas, segundo elas, depararam-se com uma comunidade onde a água distribuída na cidade não é fluoretada. Isso impacta diretamente a saúde bucal da população, especialmente das crianças, tornando essencial o acesso ao flúor, seja por meio do creme dental ou em consultório odontológico.

Além de levarem conhecimento acadêmico, os alunos trouxeram consigo novas perspectivas sobre trabalho comunitário e desenvolvimento social, reforçando a importância da troca entre Universidade e sociedade (Foto: Projeto Rondon)
“Além disso, observamos a ausência de um centro de especialidades odontológicas gratuito. Embora haja atendimento básico com dentistas, casos mais graves muitas vezes não são resolvidos, seja pela falta de infraestrutura, seja pelas limitações financeiras da população. Como resultado, muitos moradores apresentavam cáries avançadas e até perda dentária”, ressalta Mariana.
As alunas contam que a rotina variava com oficinas programadas ao longo do dia. Realizaram atividades de educação em saúde bucal em escolas, promoveram palestras para a população em geral e apresentaram propostas à gestão de Saúde do município para melhorar a assistência odontológica na cidade. “Um grande momento foi uma palestra que fizemos no bairro de pescadores. Como não tínhamos um local, nos reunimos com a comunidade na cozinha de um senhor chamado Zé. Além da casa dele, fizemos apresentações também em igrejas e escolas”.
“O Projeto Rondon nos mostrou realidades diferentes da que vivemos na Universidade. Muitas vezes, coisas que consideramos básicas, como acesso ao flúor na água ou ao fio dental, não fazem parte do dia a dia de muitas pessoas. Estar lá e ver de perto essa realidade foi um choque, mas também uma oportunidade de aprendizado e crescimento. Essa experiência ampliou nossa visão e reforçou a importância de levar conhecimento e assistência a quem mais precisa”, reflete Laura.

A equipe, composta por 22 pessoas de diversas áreas, como Medicina, Enfermagem, Odontologia, História, Matemática e Jornalismo, se dedicou a promover oficinas, feiras de saúde e outras ações comunitárias (Foto: Projeto Rondon)
Troca
Em Lambari, cidade a 260 km de Juiz de Fora, um grupo de oito estudantes de Odontologia, orientados pelo professor Fabrício Tinôco Alvim, do Departamento de Clínica Odontológica, também participou das atividades. Entre eles, estava a estudante de Jornalismo, Taynara Rodrigues, e o estudante Pedro Santos, do curso de Odontologia. A principal necessidade identificada foi o precário sistema de Saúde, tanto em termos de infraestrutura quanto da quantidade de profissionais qualificados disponíveis para atender à população.
Segundo os estudantes, a rotina da equipe foi intensa, com atividades diárias das 8h às 18h, e reuniões à noite para planejamento. A equipe, composta por 22 pessoas de diversas áreas, como Medicina, Enfermagem, Odontologia, História, Matemática e Jornalismo, se dedicou a promover oficinas, feiras de saúde e outras ações comunitárias. “Ficamos alojados em uma creche adaptada, e todos os dias realizamos atividades em locais próximos”, conta Santos.
“No começo, pensávamos que o mais importante era levar conhecimento, oferecer ferramentas, mas logo entendemos que o essencial era a troca. Às vezes, o que mais importava não era o que ensinávamos, mas o simples encontro com as pessoas”, complementa, Taynara.
Pedro ainda enfatiza a transformação de sua visão sobre a profissão e as relações humanas. “As experiências que passei com eles, as vivências que tive com todas as oficinas e ações na comunidade vão ficar enraizadas em mim, aprendi muito com minha equipe, aprendi muito com o povo de Lambari, espero ter conseguido retribuir pelo menos um pouco de todo o bem que me fizeram.”

Entre as ações, estudantes levara orientações para pais e crianças sobre higiene bucal(Foto: Projeto Rondon)
Semente
A participação no Projeto Rondon foi um marco transformador para a estudante Paloma Estevão Fideles, do curso de Medicina do campus avançado de Governador Valadares, que integrou a equipe responsável pela operação no município de Marmelópolis, a 737 Km de distância e cerca de três mil habitantes. A aluna foi orientada pela professora Simara Ribeiro, do Departamento de Educação Física do campus avançado.
O principal objetivo foi valorizar os recursos locais e, ao mesmo tempo, oferecer suporte em estratégias de desenvolvimento sustentável, saúde, educação e cultura. De acordo com a estudante, os principais desafios encontrados foram de choque cultural, tanto com a outra equipe parceira no desenvolvimento das ações, quanto com a própria cidade. Além disso, também tivemos dificuldades de adaptação climática e alimentar no início da experiência.

Atividades ocorreram no Sul de Minas, nos municípios de Marmelópolis, Lambari e São Sebastião da Bela Vista (Foto: Projeto Rondon)
“Entretanto, ambas as questões foram contornadas pelo desejo comum de desenvolver as ações e deixar uma marca positiva em cada cidadão marmelopolense”, afirma. Ao refletir sobre a experiência, Paloma destaca que, ao final da operação, pôde perceber os resultados concretos de seu trabalho na cidade. “No fim de nossa estadia, foi possível ver uma semente que plantamos. Segundo os próprios moradores, “nossas ações foram o pontapé inicial em busca da renovação da autoestima, da busca por melhoria e do reconhecimento das potencialidades existentes na cidade e que precisam ser exploradas em busca do desenvolvimento sustentável.”
Objetivo
O Projeto Rondon é uma iniciativa do Governo Federal, coordenada pelo Ministério da Defesa em parceria com o Ministério da Educação e as Forças Armadas. O objetivo é promover o desenvolvimento sustentável e o bem-estar social em comunidades carentes, por meio da participação voluntária de estudantes universitários, que contribuem com soluções para problemas locais e ampliam a qualidade de vida das populações atendidas.