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Diagnóstico

Por: Anna Cecíllia Quirino Teixeira

 

O diagnóstico de Schistosoma mansoni pode ser feito por meio de diversos métodos, tanto diretos quanto indiretos. Os métodos diretos detectam formas do parasito ou partes deste, como substâncias antigênicas, enquanto os métodos indiretos dependem de evidências clínicas, imunológicas e bioquímicas que se associam à infecção1.

Entre os métodos diretos estão os métodos coproscópicos, os quais se baseiam na identificação dos ovos do parasito nas fezes do indivíduo. Esses métodos são, por sua vez, divididos em qualitativos, quando apenas informam sobre a presença de ovos do parasito, e quantitativos, os quais não somente detectam a presença dos ovos como também determinam a quantidade de ovos em cada grama de fezes1. Os principais métodos qualitativos são o método de Lutz, também chamado de método da sedimentação espontânea ou HPJ, e a técnica do formol-éter. O método de Lutz tem como princípio o processo de sedimentação do material fecal, o qual,após ser diluído e filtrado em tela metálica, para retenção de partículas maiores, é deixado em repouso por algumas horas para que se deposite2. Esse método é o mais utilizado nos laboratórios de análises clínicas devido a sua boa sensibilidade, baixo custo e fácil execução, além de exigir aparato técnico relativamente simples1. E a técnica de formol-éter, modificada por Knight e colaboradores3, é também chamada de método de Ritchie4. Essa técnica apresenta a vantagem de ser altamente sensível, contudo tem o risco do manuseio dos reagentes químicos utilizados além de ser bastante trabalhosa1.

Os principais métodos quantitativos são representados pelos métodos de Kato-Katz, de Bell e pelo método de Barbosa. O método de Kato-Katz consiste na análise quantitativa de ovos do parasito em cada grama de fezes, sendo recomendado pela OMS para o controle da esquistossomose mansônica5. Isso porque o método possui sensibilidade igual ou superior a outros métodos quantitativos, sua execução é fácil e de baixo custo, além do fato de que as lâminas podem ser transportadas e armazenadas a temperatura ambiente durante meses sem que o resultado seja afetado1. Contudo, essa técnica apresenta limitações, visto que nos casos de baixa carga parasitária a quantidade de ovos diminui, e apenas 42g de fezes são examinadas por vez6. A outra técnica é chamada de Bell e se baseia na filtração de uma quantidade conhecida de fezes emulsionadas através de telas finas e por papel de filtro, respectivamente, havendo retenção dos ovos. É então adicionada uma solução de ninidrina, a qual cora os ovos1. Porém, a execução do método não é muito prática, sendo então pouco realizado. Finalmente, o método de Barbosa consiste na filtração das fezes emulsionadas com água e sedimentação. Após medir o volume de sedimento, uma amostra deste é colhida e examinada sob microscópio e os ovos presentes são contados7. O cálculo utilizado para analisar a quantidade de ovos por grama de fezes é feito pela fórmula:

Número de ovo por lâmina x Volume do sedimento

Volume examinado x Peso da amostra de fezes

Apesar de ser uma técnica simples e de menor custo, o método de Barbosa possui baixa sensibilidade e o volume do sedimento apresenta grande variação, não sendo indicado para utilização em pesquisas epidemiológicas1.

            Outro método direto utilizado para o diagnóstico da esquistossomose é a biópsia da mucosa retal, na qual se retira um fragmento da mucosa e se analisa esse fragmento no microscópio para verificação da presença de ovos. A principal desvantagem do método é o desconforto causado ao paciente, além da necessidade de profissionais treinados para a realização do exame1.

O diagnóstico indireto pode ser realizado pela anamnese do paciente, em que se avalia a presença de sinais e sintomas, além de técnicas laboratoriais imunológicas e moleculares, sendo o diagnóstico imunológico classificado em sorológico e a reação intradérmica8. A reação intradérmica é caracterizada pela inoculação de antígenosdo parasito, principalmente da forma adula, que despertam reações mais sensíveis que as outras formas1. Porém essa técnica apresenta algumas limitações, como elevado custo, baixa especificidade, persistência de resultado positivo mesmo após o tratamento, reações cruzadas, baixa correlação com a produção de ovos e manuseio complexo9. Já os testes sorológicos são, principalmente, reação de fixação do complemento, imunofluorescência indireta eELISA (Enzymelinkedimmunosorbentassay)8.

A imunofluorescência indireta (RIFI) consiste na ligação de anticorpos na superfície do parasito, e posterior ligação de anti-imunoglobulinas humanas marcadas com fluoresceína. A fluorescência é então visualizada em microscópio1.

A técnica de ELISA é o método de diagnóstico sorológico mais utilizado, consistindo na utilização de enzimas associadas a antígenos para a detecção de anticorpos presentes, ou enzimas ligadas a anticorpos para a identificação de antígenos1,11. Como antígeno pode ser utilizado uma preparação de antígenos solúveis de ovos (SEA), o qual apresenta quantidades limitadas de antígenos solúveis, e a preparação de antígenos solúveis de vermes adultos (SWAP), que contém maior quantidade de antígenos, também solúveis1. Além destes, existem ainda os antígenos de preparações de cercárias, contudo estes apresentam baixa sensibilidade e especificidade1.

Além das técnicas citadas pode-se utilizar métodos de diagnóstico por imagem, os quais detectam lesões presentes principalmente no fígado e no sistema porta-hepático. Os métodos mais utilizados são a ultra-sonografia (USG), ressonância magnética, cintilografia, esplenoportografia e a tomografia computadorizada1. A USG permite o diagnóstico da doença e a avaliação do seu estágio de evolução. É a técnica mais utilizada atualmente devido ao seu baixo custo, facilidade de realização e por não ser invasivo1.

Recentemente, tem-se utilizado um novo método para o diagnóstico de esquistossomose. Este método se baseia na pesquisa de antígenos catódicos circulantes (CCA) e antígenosanódicos circulantes (CAA), os quais são glicoproteínas, carregadas eletronicamente em pH neutro,liberadas pelo intestino dos vermes adultos na corrente sanguínea do paciente12. Estes antígenos são bastante imunogênicos, formando imunocomplexos com anticorpos da classe IgG e IgM, sendo possível sua detecção em amostras sanguíneas de pacientes infectados.

Referências

1.    CARVALHO, O. S.; COELHO, P. M. Z.; LENZI, H. L. Schistosoma mansoni e esquistossomose: uma visão multidisciplinar. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008. 1.124 p.  link artigos
2.    CARVALHO, G. L. X., MOREIRA, L. E. ;PENA, J. L.;MARINHO, C. C.;BAHIA, Maria Terezinha; MACHADO-COELHO,G. L. L. A comparative study of the TF-Test®, Kato-Katz, Hoffman-Pons-Janer, Willis and Baermann-Moraescoprologic methods for the detection of human parasitosis. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v. 107, n. 1, 2012.  link artigos
3.    KNIGHT, W.B. et al. A modification of the formol ether concentration technique for increased sensitivity in detection of Schistosoma mansoni eggs. The Am J Trop MedHyg, n. 25, p. 818 – 823, 1976.  link artigos
4.    LIMA, L. M.; SANTOS, J. I.; FRANZ, H. C. F. Atlas de Parasitologia e Doenças Infecciosas Associadas ao Sistema Digestivo. Disponível em: < http://www.parasitologiaclinica.ufsc.br/index.php/info/conteudo/diagnostico/helmintoses-protozooses/parasitologico-fezes/ >. Acesso em: 01-10-2013.  link artigos
5.    TELES, H. M. S.; FERREIRA,C. S.; CARVALHO,M. E.; ZACHARIAS,F.; MAGALHÃES,L. A.Eficiência do diagnóstico coproscópico de Schistosoma mansoni em fezes prensadas. RevSocBrasMedTrop,v. 36, n. 4, p. 503-507, 2003.  link artigos
6.    PINHEIRO, M. C. C. Avaliação de três métodos coproscópicos para diagnóstico da esquistossomose mansônica em área de baixa endemicidade no estado do Ceará. 2010. 82 f. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará, Ceará. 2010.  link artigos
7.    COURA,J. R.; CONCEIÇÃO, M. J. Estudo comparativo dos métodos de lutz.kato e simõesbarbosa no diagnóstico cropológico da esquistossomose mansoni. Rev Soc Bras Med Trop,v. 8, n. 3, 1974.  link artigos
8.    VITORINO, R. R.; SOUZA, F. P. C.; COSTA, A. P.; JÚNIOR, F. C.F.; SANTANA, L. A.; GOMES, A. P. Esquistossomose mansônica: diagnóstico, tratamento, epidemiologia, profilaxia e controle. Rev Bras Clin Med, v. 10, n. 1, p. 39 – 45, 2012.  link artigos
9.  BECK, L. C. N. H. Avaliação de abordagens sorológicas para a discriminação das formas agudas e crônicas da esquistossomose mansônica humana/ Lílian Christina Nóbrega Holsbach Beck. — Recife: L. C. N. H. Beck, 2007. – Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz, 2007.  link artigos
10.    LUNDE, M.N., OTTESEN, E.A. Enzyme-linked immunosorbent assay (ELISA) for detecting IgM and IgE antibodies in human schistosomiasis. Am J TropMedHyg. v. 29, n. 1, p. 82 – 5, 1980.  link artigos
11.    ELISA. Disponível em: http://www.medicina.ufba.br/imuno/roteiros_imuno/ELISA.PDF . Acesso em: 29-10-2013.  link artigos
12.      QUEIROZ, R.F.G. Desenvolvimento e padronização de novas metodologias aplicadas ao diagnóstico e monitoração de cura da esquistossomose mansoni na fase inicial (aguda) e crônica. 2012. 166 f. Tese (Doutorado em Ciências). Centro de Pesquisas René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz, Belo Horizonte, 2012.  link artigos